terça-feira, 30 de março de 2010

À maneira de epígrafe

"A subjetividade, veículo da expressão na música tradicional, não constitui o último substrato da própria expressão, assim como o sujeito, até hoje substrato de toda arte, não é sem mais nem menos o homem. Tal qual o fim, também a origem da música vai mais além do reino das intenções, do sentido e da subjetividade. A origem da música está estreitamente ligada ao gesto do pranto. É o gesto de um resolver-se. A tensão da musculatura facial cede, essa tensão que, quando o rosto se volta ao mundo, com vistas à ação, isola-se ao mesmo tempo deste. A música e o pranto fecham os lábios e dão liberdade ao homem. O sentimentalismo da música interior recorda, em forma degradada, o que a verdadeira música pode precisamente conceber à margem da loucura: a conciliação. O homem que se abandona ao pranto e à música que já não se lhe parece em nada, deixa ao mesmo tempo fluir em si a corrente do que ele mesmo não é e que estava por detrás das barreiras do mundo das coisas concretas. Com seu pranto e com seu canto, o homem penetra na realidade alienada. "Corram as lágrimas, a terra me tem de novo"; a música se comporta de acordo com isso. Desta maneira a terra tem outra vez Eurídice. A expressão de toda música, embora seja num mundo digno da morte, é representada pelo gesto do que retorna e não pelos sentimentos do indivíduo que espera".

"Schoenberg e o progresso". In: "Filosofia da nova música". T.W. Adorno. 1958

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