O arranjo das guitarras, como tudo o mais nessa banda, é uma salada de estilos. Tem muita coisa aí. Vamos por partes...
Em primeiro lugar, uma guitarra com timbre opaco, como o das Gretchen da década de 50 (na verdade é uma Telecaster com o "tone" baixo), toca um boogie-woogie desacelerado numa das afinações clássicas do blues, Sol maior aberto. Como o padrão, apesar de executado lentamente, é mais vívido do que o da repetição de colcheias da linha da guitarra em oitava superior, o efeito conseguido é o de algo atravessando o ritmo constante da linha da guitarra oitavada. A estrutura dessa linha sugere os acordes de Do menor e Sol maior, em torno dos quais a maior parte da canção gira.
A segunda linha de guitarra faz uma melodia, em tessitura muito alta, que extrapola o alcance do braço. Isso é conseguido com um oitavador (pedal usado desde a década de 70), de maneira que o timbre original fica totalmente descaracterizado, agudo demais. Apesar de o oitavador ter sido uma "novidade tecnológica" na época em que foi inventendo, hoje percebemos que, na verdade, ele buscava imitar o timbre das Rickenbacher, muito populares na década de 60 e, logo em seguida, devido ao sucesso de bandas como os Beatles os Byrds, item de colecionador.
Organizada pela alternância de graus conjuntos e terças, encerrando com o "bend", essa melodia tem certa simetria. Tal impressão é reforçada pelo fato de ela se estender, num ciclo, como se sua execução tivesse sido programada no computador.
Já a terceira linha de guitarra não é uma linha, acontece como se fosse o pano de fundo da harmonia. Um indutor magnético sustenta a vibração da terceira corda de uma guitarra (a sol), que, através de manipulação da alavanca, fica oscilando dessa nota até a sensível, Fa# (que é também o trítono de dó menor) e de volta, passando por todos os microtons contidos entre as duas alturas.
Note-se que, com o uso do indutor magnético, a guitarra consegue realizar efeitos parecidos com os dos sintetizadores ou os dos instrumentos de sopro (quando o sopro é constante) que, em contexto pop, servem quase sempre de argamassa para o canto. Aqui, no entanto, a ideia não é apenas ressaltar uma nota da tapeçaria harmônica . É perturbar o moto-contínuo da guitarra oitavada com um zunido.
Acontece que, como o som sustentado por muito tempo se contorce em torno de sol (tônica de um dos acordes sugeridos pela linha da guitarra oitavada - o outro é o Dó menor), mesmo que esteja em tessitura mais baixa, o ouvido tende a, intermitentemente, misturar e distinguir as alturas das duas linhas. (É fazer a experiência pra perceber se a dificuldade de distingui-las não vem daí).
Na segunda parte da canção, depois do primeiro refrão, quando ainda outra linha de guitarra surge, no timbre aveludado da falsa Gretchen, ademais sem o acompanhamento do "zunido", é como se a agitação afetiva da primeira parte tivesse sido resolvida, mas a mesma tensão permanecesse. O modo ainda é o menor, obscuro, como a ambiência de toda a canção, mas o efeito harmônico criado por essa nova melodia (que passa pela 9a do Dó menor) é mais repousante do que o criado pela anterior (que pingava entre as tônicas e as demais notas dos acordes, criando tensões ampliadas pela alta tessitura). Além disso, o padrão rítmico, neste caso, é mais gracioso, terminando numa semi-colcheia antes da cabeça do tempo em terça maior no Sol maior, o que cria um efeito estranho de leveza.
Já no refrão (que equivale a uma espécie de "surto" na lógica da letra) repete-se com mão pesada um padrão mais rítmico do que harmônico, um recurso típico de bandas "barulhentas" do grunge, como o Melvins e o Mudhoney. Esse recurso consiste em alternar as cordas graves soltas e um "ruído" estridente (na verdade um acorde 7/9 distorcido por uma "puxada de mão esquerda) em rítmo meio sincopado.
O agregado de sons tocados simultaneamemte que não forma exatamente um acorde e nem precisa permanecer estático, sendo distorcido interiormente por bends, não é uma coisa exclusiva do rock ou do metal. A música erudita usa esse tipo de recurso desde pelo menos a década de 20 . A partir dos anos 50 pode-se contar centenas de peças baseadas em efeitos parecidos, dentre as quais a "Trenodia para as vítimas de Hiroshima" de Penderecki, um dos compositores favoritos de Greenwood. No contexto da canção, o ritmo frenético e a oscilação de grave e agudo resultam numa espécie de grunido elétrico que materializa o "surto".
Além disso, a pequena ponte que liga as repetições de padrão do refrão é feita, numa guitarra, do acorde C7/9 (dessa vez sem as distorções). Esse acorde é típico do blues de doze compassos e prepara a volta do "grunido" em Sol. Noutra guitarra, desce-se, no agudo, de sol para ré, cromaticamente, num padrão rítmico que lembra a música de circo destinada ao número do malabarista ou do equilibrista.
Por fim, há também a "bridge", com a letra reconfortante. Essa parte é formada por acordes simples, acompanhados de uma guitarra em harmonia ascendente, no timbre de guitarra típico do britpop do final da década de 90 (como o do Blur). O que ameça o Eu-lírico o tempo todo na letra, uma espécie de sensação visceral de mal-estar lhe estende a mão ("you can be frighted, that's ok").
Esse trecho abre passagem, finalmente, para o retorno dos altos decibéis no solo, que é uma combinação de um padrão simples pentatênico (mais uma vez, blues) com a "música de circo", tocado, como sempre no caso de Greenwood, com mão pesada, espancando a guitarra, para que o som fique "sujo" (no que ele demonstra, em mais um aspecto, sua filiação aos "maus guitarristas" de grunge dos anos 90).
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário