De acordo com os textos e os vídeos que têm veiculado na internet, parece que está acontecendo um muito improvável movimento de politização da classe musical erudita no Brasil. A votação do projeto de re-estruturação da administração municipal da música, que noutro não mometo não teria merecido uma nota sequer, tem sido acompanhada em detalhe por grupos de associações de alunos. Há poucos dias, um compositor notório endereçou uma carta pública de reprova a um grande nome da regência paulista, que embora só agora, depois de muitos desmandos, tenha resolvido deixar o posto, vinha sendo questionando por diversos setores. E, por fim, também tem-se acompanhado com interesse o movimento dos músicos cariocas com relação à privatização da OSB.
Diante desse fenômeno entretanto, eu não devo ser o único a ser tomado de um misto de alegria e desconfiança. Afinal, vivendo sempre a meio caminho entre o setor público e o favor, a música, se não popular, sempre foi um obséquio concedido a alguns indíviduos, derivado da necessidade das elites e das classes médias brasileiras de se ilustrarem. Mas pensando no que vem acontecendo no Brasil, os sentimentos esquisitos mobilizados pelo acontecimento não têm a ver só com essa permanente estrutura da música no país. E sim com a "revolução musical" gerada no Brasil ao longo dos últimos dez anos.
Todos sabem a que me refiro. Regularmente, investimentos sólidos têm sido direcionados para a música erudita, pelo menos aqui em São Paulo. A ponto de finalmente dispormos de uma orquestra que se tornou referência no mundo inteiro (ou pelo menos isso é o que dizem os folders e as matérias da Revista Concerto). A administração da educação musical pública, travando parcerias com o setor privado, está otimizando as condições do ensino (já de boa qualidade) no município. Há um burburinho em torno do surgimento de uma cena de ópera no país, a que recentemente veio se juntar o ex-regente da OSESP, John Neschling. Tal dimensão adquiriu o surto de progresso musical, que até a ovelha negra da música erudita, a música contemporânea, ganhou espaço nos debates e nos programas (ainda que preferencialmente os dominicais ou os simultâneos ao grande banquete de Campos de Jordão).
Ora, em meio a esse processo, é notório também como as condições de emprego e formação têm se modificado. Preconceitos compactos da cultura musical têm sido tímida e gradativamente objetados. O campo público e privado de postos e jobs, por outro lado, se amplia a olhos vistos e com prodigiosa velocidade. O que leva, digamos, um antes irreconhecido talento jovem do trompete, filho caçula de uma família humilde de Birigui, à escola de formação da OSESP. Bem como, inversamente, um talentoso pianista de família tradicional a um posto de professor numa escola rural no Tocantins, sob a tutela da ONG Música para o futuro.
Diante desse quadro, e levando em conta o repúdio arraigado que o setor musical nutre pelas considerações práticas do métier, é de se admirar e saudar esse movimento da jovem OSB. No entanto, alguns aspectos do discurso de seu porta-voz não deixam de provocar calafrios. O que suscita algumas questões:
1) É só quando a demanda por música erudita aumenta no país que os músicos são mal tratados e submetidos a condições indignas de trabalho?
2) O que, além do esforço, da possibilidade de investimento familiar, do trabalho e do talento - de resto atributos de qualquer trabalhador de classe média - justifica para os jovens da OSB o posto de representantes da chamada “classe musical”?
3) Será que é mesmo em nome da música e da arte que o movimento está se organizando?
Obvio que se trata, nesse manifesto, de uma intevenção pontual, feita para ecoar um só problema: o da privatização. Mas, ainda assim, é evidente que os músicos que tomaram tal iniciativa só o fizeram porque sabem muito bem que a ocorrência não é tão específica que não possa evocar todas as distorções da produção e da educação musical. E tanto sabem, que não há rastro de inibição em se mobilizar os pares excruciantes muito familiares para todo e qualquer músico - "respeito à arte/desrespeito ao profissional", "amor à música/crueldade da mera eficiência", "futuro de amor puro da música/o eterno presente de opressão produtiva".
Mas afinal, por que essa atitude se tornou possível? Por que os músicos jovens da OSB podem fazer seu manifesto pacífico?
Bem, numa analogia imperfeita mas eficiente, pode-se dizer que eles estão - descontadas as dimensões menores e o aspecto exclusivista do métier - em posição semelhante à dos operários da indústria automobilística da década de 70. Ou seja, no momento em que, respondendo à demanda aberta pelo fluxo de investimentos, armou-se um grande esquema nacional de financiamento público-privado da música erudita, o setor dos jovens músicos eruditos empregados candidatos às vagas ganha em poder de barganha. Acontece, entretanto, que a demanda financeira por música não tem favorecido só a música erudita, e sim a música como um todo. É o que se vê em todos os cantos onde multiplicam-se gravadoras, selos independentes, novos nomes da música pop, casas de exibição e publicação. O Conservatório Souza Lima firma parceria com a Berkley; consequentemente estudantes saem do pais com-mala-e-cuia a fim de graduarem-se nos EUA e arranjarem gigs mais polpudas. Ou seja, a abertura das fronteiras de investimento não é um processo que atinge só o topo da produção, mas sim sua totalidade.
Como fica a situação, então? Da seguinte maneira: os demais músicos, que dependem única e exclusivamente de relações informais de trabalho, são esfolados, sem verem seu valor agregado crescer. Ou então, tendo que defendê-lo a-ferro-e-fogo na descompensada mesa de negociação de cachês. Enquanto isso, os músicos eruditos de ponta, porque têm chance de acederam a melhores e mais estáveis condições de trabalho, podem usar desse poder virtual, para representar os músicos, o que fazem com base em seu valor.
É portanto isto que veremos ser exposto à luz do dia, na manifestação da jovem OSB: engajamento nos interesses gerais da classe musical por parte dos que têm um futuro. Certo? Mais ou menos. De fato o discurso da jovem prima pelo pathos da representação da classe e dos valores universais da música. Mas será que o falatório tem correspondência numa atitude real de sua parte? Tenho minhas dúvidas...
Afinal, ao invés de levantar dados sólidos da situação de toda a classe musical, e assim realmente justificar suas intenções, os músicos do Rio retiram sua autoridade da mera afirmação do fato de representarem a classe musical. Só isso, como o próprio porta-voz deve imaginar, já faz bufar o espectador. Especialmente o espectador interessado nas pretensas mudanças. Mas o falsete, ao invés de ser disfarçado, na verdade ganha o centro da composição. E então, é ele justamente que catapulta a pretensão dos pleiteantes à OSB direto rumo aos mais altos valores da música. Os mesmos que, como todo músico bem sabe, a própria música objeta com seus difícies e racionais princípios, cuja quintessência reduz-se ao seguinte elemento para um intérprete: "consciência do seu próprio papel diante da maneira como o jogo das notas se arma, seja no papel, seja na realidade do evento musical".
Mas talvez estejamos sendo muito condescendentes quando imaginamos que o movimento peca apenas por não ter consciência do problemão em que está se metendo. É que tudo se torna ainda mais sensível, no momento em o discurso, para justificar seu alto teor idealista, faz lembrar o desrespeito e a brutalidade das relações de trabalho e ensino. Estas, como todo músico sabe, impregnadas em todos os setores do labor e da educação musical, desde o conservatóro de bairro até a melhor faculdade de música do país, desde o barzinho com picanha na tábua, até a Sala São Paulo.
Ora, quando vejo isso, fico pensando. Será que esse mesmo músico não sabe que será ele, muito em breve, que haverá de se ver na posição de autoridade, forçado a arrancar música da OSB de amanhã a porrete?
É claro que sabe. E as palavras bonitas não deveriam enganar a esse respeito. Ao fazer relação direta entre os desmandos da administração da OSB e apenas uma ideia de financiamento musical a que se recusam, os manifestantes propositalmente deixam de abordar as opressões reais que permitem a reprodução das relações de trabalho e ensino musical em geral. Tal como a reportagem-denúncia no Globo Reporter, o que importa é mostrar os roxos e a desnutrição naquela fazenda bárbara dos cafundós, naquele mocozinho perdido entre arranha-céus, e não o vínculo que providencia, em conjunto, a desgraça humanizada dos bem-nutridos e a aniquilação dos mendigos.
Mas se de praxe essa disciplina militar, essa marcha de insígnias, essa reprodução da assimetria social na estrutura da prática musical jamais pôde se reverter em favor do chamado "espírito da música", com o mercado pressionando e acenando aos jovens talentos com as suas promessas, tudo indica que, objetivamente, isso tem diminutas chances de acontecer agora. É isso justamente que este movimento da OSB, malgrado toda a virtude, parece saber muito bem.
Por isso mesmo, ao que me parece, o que se dá nesse video é a mistura de uma politização da classe musical (que há muito tempo já deveria ter acontecido e de outra maneira!) com a instrumentalização das novas perspectivas da música no Brasil. Ou seja, exatamente como na sala de aula - lugar de onde, a fim de aperfeiçoar-se, um bom músico nunca sairá -, os alunos brilhantes têm em vista, não a melhoria coletiva da classe, e sim o abrandamento da ira da autoridade, a qual, afinal, também tem suas obrigações, tal como o balbucio dos manifestantes não deixa de reconhecer. O que deveria ser uma atitude de afirmação dos vínculos coletivos da classe espezinhada se transforma em demanda oportunista de piedade. Tudo vindo por parte do especialista, beneficiário da injustiça mais geral, a qual por sua vez, em gesto elitista de protesto, seu discurso ratifica.
Pois bem. Há alguns dias, correu pela internet uma carta de um compositor importante endereçada a um regente notório. Trata-se de um texto forte em que o primeiro traz à tona sua experiência antes amistosa com o segundo. Tudo a fim de reprovar a maneira desrespeitosa como o maestro vinha administrando sua orquestra. O estopim, ao que parece, foi a demissão sem justificativa de uma série de músicos, no decorrer mesmo da temporada. Mas, ao final de suas linhas, quando interessa ao compositor chamar o ex-colega à razão, bem como aplicar-lhe sanções, qual não é a nossa surpresa em entrever o mesmo tipo de apelo universalista ao espírito da música, a mesma ideia de que um setor profissional representa os músicos em sua totalidade. E, enfim, o mesmo congraçamento de iniciados que aparece agora no discurso do jovem membro da OSB.
Está certo. O compositor teve a admirável iniciativa de reforçar a voz dos músicos. Seu apelo se dirigiu aos valores inestimáveis de amor e razão portados pela música. E, numa atitude dura, sua reprova se inspirou nos bons ares do início da carreira do talentoso maestro, que também já foi compositor promissor. Mas, ora, podia-se esperar menos de um artista? Acho que não. Afinal, a menos que consiga responder com a caneta ao ritmo da esteira de produção, também ele fica alijado da interpretação e da discussão de suas obras. E, convenhamos, para seus interesses é bom que ela continue rodando, mesmo que plus doucement, e privilegiando o já-de-praxe-de-bach-a-rachmaninoff.
Mas se de praxe essa disciplina militar, essa marcha de insígnias, essa reprodução da assimetria social na estrutura da prática musical jamais pôde se reverter em favor do chamado "espírito da música", com o mercado pressionando e acenando aos jovens talentos com as suas promessas, tudo indica que, objetivamente, isso tem diminutas chances de acontecer agora. É isso justamente que este movimento da OSB, malgrado toda a virtude, parece saber muito bem.
Por isso mesmo, ao que me parece, o que se dá nesse video é a mistura de uma politização da classe musical (que há muito tempo já deveria ter acontecido e de outra maneira!) com a instrumentalização das novas perspectivas da música no Brasil. Ou seja, exatamente como na sala de aula - lugar de onde, a fim de aperfeiçoar-se, um bom músico nunca sairá -, os alunos brilhantes têm em vista, não a melhoria coletiva da classe, e sim o abrandamento da ira da autoridade, a qual, afinal, também tem suas obrigações, tal como o balbucio dos manifestantes não deixa de reconhecer. O que deveria ser uma atitude de afirmação dos vínculos coletivos da classe espezinhada se transforma em demanda oportunista de piedade. Tudo vindo por parte do especialista, beneficiário da injustiça mais geral, a qual por sua vez, em gesto elitista de protesto, seu discurso ratifica.
Pois bem. Há alguns dias, correu pela internet uma carta de um compositor importante endereçada a um regente notório. Trata-se de um texto forte em que o primeiro traz à tona sua experiência antes amistosa com o segundo. Tudo a fim de reprovar a maneira desrespeitosa como o maestro vinha administrando sua orquestra. O estopim, ao que parece, foi a demissão sem justificativa de uma série de músicos, no decorrer mesmo da temporada. Mas, ao final de suas linhas, quando interessa ao compositor chamar o ex-colega à razão, bem como aplicar-lhe sanções, qual não é a nossa surpresa em entrever o mesmo tipo de apelo universalista ao espírito da música, a mesma ideia de que um setor profissional representa os músicos em sua totalidade. E, enfim, o mesmo congraçamento de iniciados que aparece agora no discurso do jovem membro da OSB.
Está certo. O compositor teve a admirável iniciativa de reforçar a voz dos músicos. Seu apelo se dirigiu aos valores inestimáveis de amor e razão portados pela música. E, numa atitude dura, sua reprova se inspirou nos bons ares do início da carreira do talentoso maestro, que também já foi compositor promissor. Mas, ora, podia-se esperar menos de um artista? Acho que não. Afinal, a menos que consiga responder com a caneta ao ritmo da esteira de produção, também ele fica alijado da interpretação e da discussão de suas obras. E, convenhamos, para seus interesses é bom que ela continue rodando, mesmo que plus doucement, e privilegiando o já-de-praxe-de-bach-a-rachmaninoff.
Daí porque, sem dar às vistas, também o compositor não hesita em minorar o que parecia ser uma estridente indignação pública. E sob toda a plumagem de seu discurso, pode-se ler, também, em tom muito comedido: “ Calma, maestro! Não convém torturar demais os meninos, nem ameaçar-lhes o ganha-pão...”.
Isso dito, deveríamos encerrar esse texto por aqui. E lembrar o velho Alban Berg, que em sua Lulu caracterizara o espirito da música sabemos bem como. Ora. Se nem de um compositor é possível esperar algum senso de responsabilidade sobre seu papel, então pode ser uma demasia pedir o mesmo de um intérprete. Talvez a pressão da ideologia do talento e da dinâmica cruel da vida de concertos, fatores agravados pela sempre-atuante mitologia do gênio, sejam forças demasiado poderosas para que ele possa, mesmo assim, se dar ao luxo de pensar e sentir o terreno em que pisa...
Mas nem por isso não podemos terminar este texto com um apelo desesperado.
Assim, se munidos de seu poder de barganha, os músicos da OSB querem mesmo fazer jus à posição de representantes que arrogam ter nesse vídeo, então deverão reconhecer o erro em que insidiram ao edificar a resistência às suas condições de trabalho sobre a atitude que se entrevê nesse manifesto.
Assim, se munidos de seu poder de barganha, os músicos da OSB querem mesmo fazer jus à posição de representantes que arrogam ter nesse vídeo, então deverão reconhecer o erro em que insidiram ao edificar a resistência às suas condições de trabalho sobre a atitude que se entrevê nesse manifesto.
Mais adequado (e honesto!) seria que os intérpretes de ponta e os compositores, desde já, reconhessem a ironia objetiva a que o recente processo de desenvolvimento da música os submete. Qual seja: quando as condições de trabalho e educação se democratizam um pouco no Brasil, os intérpretes de música erudita de fato têm chance de galgar um posto na cadeia alimentar musical impensável há 50 anos. Mas justamente nesse momento, eles se vêm reduzidos a uma posição de mão-de-obra barata, substituível, contra a qual ainda não dão sinais de quer lutar.
A menos é claro que, como Figaro, hoje irremediavelmente envelhecido, estejam apenas encenando uma estratégia de luta que, malgrado gesticulações adversas, assente com o risco de polução de sua mais celebrada musa... inspiradora...

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