quarta-feira, 14 de abril de 2010

Manual para o habitante das cidades

* sobre um poema de Bertolt Brecht

Quando você chegar
nesta casa vazia
entre depressa
lajote as saídas
põe cal nas paredes
remende as cortinas

e apague os seus passos
sempre às escondidas
dos olhos alheios
com terra batida

e troque os seus braços
por senhas em filas
sem fim nem começo
num guichê de mentira

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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Em tom pastelão

Você, meu espectador, quer acreditar
nas coisas que ouviu sair da minha boca
(ou passear à toa nos meus olhos):
noites americanas, casas de papelão,
a rua, uma faixa preta pintada no chão.
A lua no quarto-minguante
ilumina os pobres figurantes
da tragicomédia em tom pastelão.

Navalha, aposentado (uma vinheta)

Pula logo cedo, cai na rua à contra-mão,
dobra a esquina, pára, hesita,
segue as curvas de um quadril.

Esquece a condução, toca pra um velho botequim,
onde um grande dia espera
o ano inteiro, sem dormir.

Desce uma da casa,
sal no tira gosto,
passa a tarde, a noite afora,
docemente assim.

Ganha na cacheta, deu no seu pavão,
some de mansinho com a morena do patrão

dorme pilequinho
e deixa a conta no balcão.

Samba ferido

Não diga, vejo em teus olhos:
tens vontade de partir.
Pus este samba no teu bolso
antes que me escapasses enfim.

Se ele é menos do que querias,
outra és tu e não eras pra mim;
se quem ama esquece o troco,
te perdôo, que sejas feliz.

Se era menos o que querias,
pouco és tu e não eras pra mim;
se quem ama esquece o troco,
te perdôo.

Não vou chorar tua falta,
nem as tuas pesam neste coração.
Mais vale este samba ferido
que o teu canto - riqueza, ilusão,

toada de ouro,
partido de prata
e cifrão.

Mais vale este samba ferido
que o teu pranto,
mesmo que sem tostão.

Canto das formigas

Trabalhar não dói
pra quem trabalha;
não dói pra quem
não trabalha, não
dói pra quem dói

dói dói dói dói dói

Mas se trabalhar não dói
pra quem trabalha,
não dói pra quem não trabalha,
não dói pra quem dói

dói dói dói dói dói

Logo, trabalhar não dói
pra quem trabalha,
não dói pra quem não trabalha,
não dói.

Pra quem dói

(uh-chh-uh-chh-uh-chh-uh-chh),

dó!

Olho

noite

noite-cal, o ar

franze no silêncio
um lago-sem

ponte

pra um não-lugar

de sombra azul
na tarde-luz

crepuscular:

olho,
outro mar.

O coveiro

* versão da canção "Le fossoyeur" de Georges Brassens.

Le fossoyeur

Dieu sait que je n'ai pas le fond méchant,
je ne souhait jamais la mort des gens;
mais si l'on ne mourrait plus,
je créverais de faim sur mon talus.

J'suis un pauvre fossoyeur...

Les vivents croient que j'ai pas de remords
de gagner mon pain sur les dos des morts;
mais ça me tracasse et d'ailleurs
je les enterre à contre-coeur.

J'suis un pauvre fossoyeur...

Et plus je lache la bride à mon émoi
et plus les copains s'amusent de moi.
Ils me disent "Mon vieux, par des moments,
t'as une figure d'enterrement".

J'suis un pauvre fossoyeur...

J'ai beau me dire que rien n'est éternel,
j'ne peut pas trouver ça tout naturel
et jamais je ne parviens
à prendre la mort comme elle vient.

Je suis un pauvre fossoyeur...

Ni vue, ni connu, brav'mort adieu!
Si du fond de la terre on voit le Bon Dieu
dit lui le mal que m'a couté
la dernière pelletée.

J'suis un pauvre fossoyeur...

**********************************

O coveiro

Só Deus sabe que eu tenho um bom coração,
nunca quis o mal a nenhum cristão;
mas se o homem não morresse,
ia eu de fome um dia desses.

Eu sou um pobre coveiro...

Tem quem diga que eu não tenho remorso
de botar o almoço na conta dos mortos;
mas eu não tenho sossego,
minha cama é um braseiro.

Eu sou um pobre coveiro...

E se às vezes até me escapa o choro,
logo vem o patrão, me chama de frouxo,
e os outros dão risada:
"que é que foi? Cê viu fantasma?".

Eu sou um pobre coveiro...

Sei que tudo o que é vivo ao pó tornará,
mas, na hora h, quem usa a pá?
Natural que eu não consiga
ver na morte boa amiga.

Eu sou um pobre coveiro...

Mas pra mim já deu, adeus, mundo cruel!
Se o fundo da terra te ouvirem os céus,
diz do mal que me roeu,
cobriu meu rosto só de breu.

Eu sou um pobre coveiro...

A mão invisível

A mão invisível

Me manda fazer
um gesto sem jeito
só pra me imitar,
se eu digo que “não”,
desmancha a minha boca
na morsa do ar.

Se eu fujo pra longe,
lá de trás fecha o punho e daqui
não sinto mais nada,
sou sombra de mim,
dissolve o meu corpo
em seu negro cetim.

À mão leve vem,
sulfura em segredo
o artelho polar,
assim, sem se ver,
se sente no escuro
um gelado palpar.

Me manda pra longe
de você, pra longe de mim,
nem vi me enlaçou
nos seus braços e assim
trocamos de lado,
valsamos sem par.

Traz sempre pra eu ver
escombros de sonho,
vermelho-solar.
Não deixa esquecer
o nome de alguém
que jamais voltará.

Se o tempo responde
toda angústia com um “é assim”,
em concha é sem borda,
sem fundo e sem fim,
pois preme o que cabe
no que não pode estar.

Acena outra vez,
aponta pra quando,
de um outro lugar,
na lâmina-tez,
riscou tudo que ainda
está pra se dar.

Talvez se perder
seis falanges na hora do fim,
partida à mão-cheia,
a cidade ruim,
já cinza e exangue,
palma seca ao luar,
repousará.


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sábado, 3 de abril de 2010

Porrada e música para os ouvidos

Desliga essa barulho! Parece um motorzinho de dentista! Parece uma trombada de caminhão, um trator, uma betoneira. Etc, etc, etc.

Quem gosta de rock já deve ter ouvido alguns desses desaforos. Eles costumam aparecer em todos os lugares onde um passatempo inocente provoca irritações.

Sabe como é, amanhã é dia de branco e, com tanta gente tentando dormir, não convém fazer tanto barulho, ainda mais quando não é você quem paga as multas.

Pobre menino! Querem tirar de você a única coisa que soa como música a seus ouvidos.

Mas você às vezes também exagera....

Melhor esquecer tudo isso, vai dormir. Amanhã será sempre um novo dia.

***

Não há adolescente que não passe por isso. Pelo menos não houve, na época em que o rock dominava as paradas de sucesso e a programação da MTV.

Ou melhor, não havia lá no meu bairro, na minha cidade.

Lá onde, nos idos da década de 90, a gente fazia bailinhos estranhos em que ninguém dançava aos pares - só pulava sozinho, batendo a cabeça a noite inteira.

Hoje acho até meio ridículo.

Lembro que as meninas, assim que começava a pancadaria, sentavam juntas, conversavam um pouco e depois se amuavam. Até que, lá pelas tantas, aparecia um vizinho, dizendo que era tarde e que a polícia estava a caminho.

Era esse o nosso "toque de recolher", o sinal externo confirmando a intuição de que tínhamos exagerado no barulho, e que era melhor afinal, inclusive para os nossos ouvidos, deixar a gritaria e os zumbidos para a próxima festa, o que fazíamos, contrafeitos, não sem muito reclamar da interrupção, realmente sem motivo.

Sem motivo? Não tão sem motivo assim. Como já sabíamos, aliás, e hoje estamos carecas de saber.

Digo, carecas no sentido figurado.

***

Mesmo lutando contra o mau humor, não posso mais dizer que não compreendo meus irados vizinhos.

E mais: que não compartilho do mesmo tipo de beligerância contra essa "música excessiva".

Quer dizer, não o mesmo: um parecido, ambivalente, irado e recatado ao mesmo tempo, cioso de se expandir em alto e bom som, sem moral pra se posicionar contra aquilo que já defendeu e que, de tempos em tempos, volta a escutar.

Coisas de que não sofriam meus vizinhos.

***

Por falar em vizinho, tenho aqui em cima um que adora Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden. Ele é um tipo meio calado, carrancudo, anda sempre de preto.

No fundo deve ser um cara legal, mas quando liga o chuveiro, lá vem a opereta from hell - I throooowww my seeeeeelf intooooo theeeee seeeee!

E eu... ai -ai-ai... fico aqui em luta interna contra os demônios kitsch-ruidosos da minha já tão perdida adolescência!

***

Sim, é verdade, preciso admitir: rock já não faz muito sentido pra mim. Tem um pouco de música ali, claro. Mas, realmente, desde o começo, desde Elvis, incluindo os Beatles, passando (ai, meu deus!) por Led Zeppelin e tornando-se óbvio quanto ao heavy metal, conta muito mais a carcaça musical (carcaça, a palavra é essa) do que a qualidade de fato da ideia.

Ou seja, às vezes muitos decibéis não passam mesmo de um monte de barulhinhos. Barulhinhos ruins (ao contrário dos da Marisa Monte, que são bons, não é?).

***

Barulhinhos ruins. Dizem isso a respeito do rock carrancudos de todas as idades, soterrados nos tipos de músicas que lhe aprazem ou vítimas dos ruídos da cidade, trilha sonora da dissolução objetiva que eles fazem força pra organizar em silêncio.

Mesmo assim, quando penso nas situações que listei acima, sempre imagino os reclamões como velhos mal-humorados.

Agora, pensando bem, percebo: nem sempre os reclamões eram idosos. Estavam em outra, tinham outros interesses, queriam dormir ou assistir TV simplesmente.

A aura superficial de juventude do estilo deve portanto suscitar a associação.

Por outro lado, realmente não acho que o tempo faça as coisas sozinho. A irritação dos adultos de outrora que prolonga-se em nós hoje em dia tem a ver é com outra coisa.

O gap de geração expõe um conflito em relação ao gosto musical que, por não ser compreendido, volta a ser encenado como ação morta do tempo, condenada a se repetir ad eternum.

O que meus pais chamavam de 'trombada de caminhão' tem a ver com o que meus avós chamavam de 'música imoral', que tem a ver com o "eterno" conflito entre um tipo de música que se torna tradicional e outra que depende dessa falsa aura de tradicionalismo da "música anterior" para declarar-se 'novidade'.

Que tipo de "novidade" o rock instaura nessa sucessão? O que há nele que seja capaz de irritar tanto aos ouvidos que nunca dele se aproximaram, independentemente das idades?

***

Enquanto a música mais antiga e a que corre em paralelo ao rock vive de uma sonoridade redonda, "bela", baseada ainda em melodias cantáveis, harmonicamente distintas ou (como no caso do samba) de uma graça rítmica aliada aos mesmos elementos.

O rock tem e não a ver com isso.

Esse dado e a intensidade do volume para o qual ele é concebido, faz com que todos possam dizer que aquilo é barulho, música feia, estridente, irritante.

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***

Em que pode consistir essa "música redonda"?

O critério para se definir o que afinal é agradável aos ouvidos é aquele que está organizado para mostrar que, em toda música na face da Terra, é significativo apenas o que contribua para que a estrutura da música "avance naturalmente".

E nesse "avançar naturalmente" está pressuposto o chamado "perfeito encontro entre melodia e sua harmonia", somado aqui no Brasil, é claro, ao apimentado senso rítmico que compreende toda a estrutura das canções, ainda por cima reforçado por um naipe luxurioso e variegado de instrumentos de percussão.

O rock, mesmo partilhando de alguns desses elementos, tenderia à desagregação desse contrato de escuta agradável.

Ao ponto de chegar a ser aquela coisa realmente impalatável para um "não iniciado": um disco do Pantera. E, mais recentemente, algo inadmissível mesmo para um iniciado: um disco do Meshuggah.

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