quinta-feira, 8 de abril de 2010

A mão invisível

A mão invisível

Me manda fazer
um gesto sem jeito
só pra me imitar,
se eu digo que “não”,
desmancha a minha boca
na morsa do ar.

Se eu fujo pra longe,
lá de trás fecha o punho e daqui
não sinto mais nada,
sou sombra de mim,
dissolve o meu corpo
em seu negro cetim.

À mão leve vem,
sulfura em segredo
o artelho polar,
assim, sem se ver,
se sente no escuro
um gelado palpar.

Me manda pra longe
de você, pra longe de mim,
nem vi me enlaçou
nos seus braços e assim
trocamos de lado,
valsamos sem par.

Traz sempre pra eu ver
escombros de sonho,
vermelho-solar.
Não deixa esquecer
o nome de alguém
que jamais voltará.

Se o tempo responde
toda angústia com um “é assim”,
em concha é sem borda,
sem fundo e sem fim,
pois preme o que cabe
no que não pode estar.

Acena outra vez,
aponta pra quando,
de um outro lugar,
na lâmina-tez,
riscou tudo que ainda
está pra se dar.

Talvez se perder
seis falanges na hora do fim,
partida à mão-cheia,
a cidade ruim,
já cinza e exangue,
palma seca ao luar,
repousará.


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