Ópera de Alberto Nepomuceno passando agora, na TV Cultura.
Ops... não é ópera, é alguma coisa cantada, sei lá o que... Chama-se "Uiraras".
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Depois da peça mais extensa, alguns lieds do homem que implantou no Brasil a canção brasileira, nas palavras da cantora...
Lieds, a canção brasileira.... rs, rs... Engraçadíssimo isso...
Aliás, as canções, no romantismo europeu, serviram pros compositores - dentre eles, os maiores, a SS do romantismo europeu, Schubert e Schumman - buscarem na poesia, na harmonia e nas melodias populares meios pra desenvolver, seguindo a trilha de Beethoven, a música fortemente estruturada e limitada quanto à expressão, tal como o classicismo vienense a havia deixado. Já as do Nepomuceno... Bom, as letras são do parnasianíssimo Coelho Neto, com súbitas inspirações kitsch de singeleza.
Vós sois a rosa mais mimosa/repousai em meu colo; ninho, onde doravante encontrarás calor... Precisa dizer mais alguma coisa?
Ah... as obras sinfônicas dele soam como Tchaikovski sincopado...
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Subitamente me lembrei de onde tinha visto o sobrenome Nepomuceno antes. A primeira vez foi no prefácio empoladíssimo para o livro de cifras e letras do Chico Buarque da Companhia das Letras. A segunda, foi em um container voando baixo na Av. Banderiantes, placa XXXXXXX Rio Grande do Sul.
Era do sul o compositor? É gaúcha a família? Não sei. Só sei que a transportadora devia ser e tampouco estava preocupada com multas.
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Ao final do programa, o comentarista da Casa das Rosas, fazendo ressalvas quanto a um arriscado exercício de passadologia (rs), comenta que, se Nepomuceno estivesse vivo em 22, faria como o aluno Villa-Lobos, que, inspirado pelo seu mestre, buscava uma música indisputavelmente nacional.
Restaria saber se o que presta em Villa-Lobos é legal porque é "nacional", ou porque soa bem...
Soa bem, como aqueles misteriosos coros indígenas....
Soa bem, como a Gavota-choro, que, roubando as melodias elementares do Bach, já despidas da trama densa do contraponto, faz com que elas virem, de repente... um chorinho... aplicando a elas justamente o mesmo tipo de estruturação cíclica que a fuga havia empurrado para a suíte (posteriormente, a base da forma sonata), relegando-o, assim, ao estatuto de técnica menor...
Qual tipo? O Lundu? O Congado? O Maxixe? Não, meus caros amigos ufanistas, o Rondó...
É um pouco por isso que a sonoridade de Bach, que ainda hoje faz pensar em coisas tão soberbas quanto a harmonia das esferas (e que é literalmente contemporânea dos primeiros esforços da ciência moderna), ali, perde toda a grandiloquência.
E esconde em si uma caixinha de pequenas delicadezas urbanas....
E imita as mãos hábeis dos mulatinhos dedilhando na flauta de pau os cantos dos tico-ticos engaiolados nas vendinhas...
Nada a ver com a trombeta da nação...
Quer dizer... pensando bem tem um pouco a ver sim... mas não vou dizer como, porque estou com preguiça...
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E mudando de canal, a gente ouve a Globo elogiando o senso cívico da África do Sul, único país em que o desejo de unidade nacional alimentou o convívio pacífico entre raças, derrotando o apartheid...
Corta. Externa. Milhões de camelôs vendendo bugigangas chinesas. Corta. Visão panorâmica de uma "praça" em Johannesburgo. Close no rosto cabisbaixo da mulher triste andando no meio da multidã, sobre umas ruas sem calçamento...
E o país recentemente retoma seu crescimento de 5% ao ano.... É, William Waack, agora é festa, mas o duro vai ser quando chegar ao bolso do contribuinte a conta pelo trem-bala que liga o aeroporto de Johannesburgo ao estádio principal...
Con-tri-bu-in-te, sendo que, repito, as ruas estão lotadas de camelôs vendendo bugigangas chinesas... rs,rs...
Fico me perguntando o que será que significa "doer no bolso" num lugar que dispõe de estádios de 3 bilhões mas cujo centro não tem calçamento...
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Ora, não preciso mais ficar me perguntando. A Globo já está mostrando... Quem viu a abertura da Copa sabe do que eu estou falando...
Não viram as fotos dos bebês subnutridos, com a trilha sonora melosa por detrás? Vão dizer que, passados 10 segundos, o que se via na tela não era a praça da apoteose de Soweto, com a população feliz, engrossando a torcida?
E executada pelo ativista dos diretos humanos (segundo Galvão, um Bob Dylan sulafricano), a música do palco que, num procedimento vanguardista, transformava-se em trilha para a propaganda da ong internacional lutando pelo bordão "educação salva" ao mostrar imagens ultrarrealistas de famílias de flagelados catando comida no lixão...
Educação salva? Ora, claro que não. Neste caso, foi a propaganda que entregou toda a negociata. Eu, ali, espectador atento, entendi tudo, num átimo...
Claro, como sou burro! É preciso fazer doações para os flagelados sulafricanos pela internet (estamos torcendo pela sua colaboração) justamente porque a dívida contraída na compra dos estádios e do trem-bala vai roer os recursos para a educação. E ambos são lances de inegável visão administrativa...
O que foi, pensa que digo isso por maldade? Ora, pense de novo! Claro que não. Você acha que alguém por um segundo pensaria em investir dinheiro para arrancar a população dos lixões em que vive? Pois é, não pensaria. Isso só se faz aqui, para depois se alardear que substituir um prato de merda por um de feijão equivale a inclusão social...
Sucede que o investimento em obras faraônicas, por algum misterioso truque da pasta de desenvolvimento que não compreendo, daqui a uns 30 anos (sendo que a expectativa de vida nas favelas de lá não deve ultrapassar os 27 daqui), fará com que brotem potes de diamante lapidado bem debaixo dos travesseiros de saco plástico de cada cidadão livre sulafricano...
É tão óbvio! Por que alguém estaria chocado? Só pode ser por isso que a negros, de par com os filhos dos que há menos de 100 anos arrancavam suas cabeças, estão festejando na praça da apoteose dos afrikaners...
Puf... educação... educação que, aliás, serviria para que mesmo em um país dividido entre os altos negócios e a população miserável? Tem que botar grana é no aerotrem, digo, no trem-bala...
Enfim, aposto que nesta Copa os gritos das torcidas vão bater recordes de decibéis. E cabe a nós gritar mais alto, não é mesmo? Então repitam comigo, a plenos pulmões, se o folego não lhes faltar nesta gelada noite em que a TV exibe opções tanto para os aficcionados por futebol (que nessas épocas, são todos) quanto para os que não têm acesso à assinatura da programação do Teatro Municipal:
Pra fren-te, Bra-sil,
oh, im-pá-vi-do co-los-so...
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