quinta-feira, 17 de junho de 2010

Dois textos acima da média gaga do debate sobre Lady Gaga

Link para dois textos de interesse sobre o mais recente fenômeno pop.

http://operamundi.uol.com.br/opiniao_ver.php?idConteudo=1146

http://revistacult.uol.com.br/home/2010/05/o-crime-de-lady-gaga/

Abaixo, transcrição dos comentários feitos sobre o segundo texto.

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Parabéns pelo texto, Márcia. No entanto, queria dizer que concordo em termos como o que disse o Thiago Mastroianni. Sem passar 1) pela relação da Lady Gaga com a pop art e os ícones femininos pop dos anos 90 e 2) pelas implicações do feminino que nela levam à estética decadentista pop, a relação entre o contemporâneo e as grandes linhas da teoria e da estética do final do XIX fica prejudicada.

É justamente com esses detalhes que eu gostaria de contribuir. Lá vai...

Acho que a relação polêmica que a Lady Gaga estabelece com as sex symbol dos anos 90 deve ser compreendida como uma dupla reflexão, no que se inclui aproveitamentos da pop art. Ela reconduz a pop art de volta a seu lugar de origem, não é claro o caldo contracultural dos anos 50, mas seu material de trabalho: a reflexão ready-made sobre as mercadorias e as celebridades. É a vitalidade artística disso que ela captura para o mainstream. O que, aliás, casa muito bem com um tempo em que, na indústria do entretenimento como um todo, vigora a reversão cínica dos gêneros - comédias românticas fatalistas, comédias de humor negro, policiais espiritualistas, filmes de terror que são paródias de si mesmos, etc.

Bom... seguindo a trilha das figuras femininas do pop de que LG é o resultado... Na ponta originária estão as musas do cinema dos tempos áureos da indústria - Rita Hayworth, Marlynn Monroe, etc. No intermédio, Madonna e suas copycats bobinhas e turbinadas dos anos noventa. E no cume, ela, Lady Gaga.

Mas como isso aconteceu? Bem, se a pop art já mostrava que o brilho das musas era como as latas de sopa Campbell, mercadoria imagética desprovida de qualidades substanciais, Madonna (cuja aparência no começo remetia diretamente à de MM) é a realização dessa constatação. Nela subsiste uma afirmação polêmica da feminilidade contemporânea, envolvida em uma embalagem protéica cujas metamorfoses só se mostram hoje limitadas porque surgiu a Lady Gaga. Prova disso é que ela não precisou se prender apenas ao estereótipo da material girl, atravessando muitas fases do pop e encarnando cada uma delas - a punk-aguado dos anos 80; a sado-heroin-chic dos 90; a turbinada dos anos 90; a espiritualista da virada do século e até a cowgirl na época do Bush. As copycats subsequentes vão levar adiante apenas a turbinada dos anos 90. A sado-90 foi parar na ala "alternativa" do rock - Placebo, Marlynn Manson (cujo nome já pressupõe a relação estreita entre a musa e o assassino em série dos anos 60), etc.

Pois bem. Acontece que a crítica desdobrada da Lady Gaga, ou melhor, como vc falou, a ironia da ironia dos ideais de feminismo que está no cerne de seu trabalho, não pode ser tomada em abstrato. Ela tem lastro numa saturação da imagem da sex symbol que funde, de um lado, a popuzuda malhada e turbinada dos anos 90; de outro, as figuras afeminadas (não necessariamente femininas, pois algumas delas são homens) que giram em torno da cultura heroin-chic, gótica, decadentista que começa nos anos 80 e se perpetua a partir dos anos 90 no terreno da cultura "alternativa".

Como ela consegue fazer esse curto-circuito? Bom, fazendo com que se comuniquem os dois aspectos afirmativos dessas figuras, a afirmação perversa da vida na morte, típica da estridente e morosa revolta depressiva dos alternativos, e a virilidade saudável das mulheres turbina.

Desdobramentos... Se a Madonna já afirmava uma feminilidade polêmica, belicosa, negativa em relação ao masculino, e também multiforme, aberta para as formas da imagem-mercadoria, a Lady Gaga vai descobrir o segredo que ela apenas tangenciou na fase sado do "Erótika": o fato de que esse pólo de comunicação entre o mainstream e os baixios do pop implica também o embaralhamento das referências de gênero, o que atenta contra a própria ideia de fundo que, na Madonna, era seu motor "vital" - a imagem de feminilidade.

Talvez por isso é que ela foi capaz de catalisar justamente o público que sempre se ancorou nessas imagens extremas e artificiosas de feminilidade: o público gay mais idealista. Um público que se interessa por ela muito mais do que o feminino, justamente porque não vive (e nem poderia viver) na pele as dificuldades de se afirmar mulher. (As mulheres podem até se empolgar, mas dificilmente se satisfarão com a ideia de que o assassinato do masculino seja a chave secreta para se apossar de si mesma. Não. Essa ideia é muito mais atraente para os homens que, para se subjetivar, têm que negar sua masculinidade até o limite em que ela se inverta, ou seja, têm que "matar" o homem dentro de si). No limite dessa perspectiva, como disse o Thiago, o seu apelo verdadeiro nutre-se, isso sim, portanto, da androginia, que, na cultura pop vem fazendo história desde o movimento glam rock e naquela ala "alternativa" que mencionei.

Pois bem. Essa posição dela em relação ao arsenal feminista da cultura pop conduz quase que necessariamente à estética da morbidez. Não só pelo fato de a desvitalização - subproduto do romantismo decadentista do XIX, como vc bem disse - ser cultivada na ala "alternativa". Mas sim porque a demanda por gozo infinito, passando por cima das distinções de gênero e das assimetrias do nexo do gênero com a produção, sempre teve a ver com o limite entre pulsão de vida e pulsão de morte. A eliminação das distinções de gênero ou o extremo embaralhamento de suas referências no contexto de uma proliferação reflexiva tão intensa das imagens pop que servem de modelo para a subjetivação, leva ao corte com o mínimo substrato natural/biológico, cujas distinções são limites reais, necessários, demandando a cada um de nós escolhas reais. Esses limites vêm sendo testados pelo capitalismo contemporâneo. E o motor para isso é a inclusão das mulheres e das minorias na esfera do consumo e, mais modicamente, na da produção.

Inclusão relativa, que fique claro. Como é impossível viver além dessas coordenadas culturais, e o processo de inclusão dos marginais do gênero ainda não se completou, o ideal de prazer que corresponde a essa atitude está consequentemente descolado do polo positivo do amor e do sexo (um polo que guarda um mínino nexo com a reprodução) e sobrevive apenas no culto tímido do polo negativo: entronca-se nas resistência à lógica do amor patriarcal, que nele sempre estiveram latentes - o sadomasoquismo, o ressentimento, a perversão, o fetichismo, a inversão sexual, o gosto com o desprazer de si e de outrem. As distinções de gênero, aparentemente superadas no campo da cultura, voltam como prazer sublimado (ou seja, contemplativo) pela evidência de que tudo o que é vivo morre e nisso está a liberdade e a forma negativa de afirmação da vida. O que é sexualizado não é a escolha sexual e a vida real em si, e sim a impossibilidade de acomodação subjetiva do gênero e a relativa liberdade que disso advém, que, convenhamos, mediante as consideráveis dificuldades de se satisfazer em relações reais em tempo de esfacelamento dos gêneros e de crise da produção, deriva direto para a mercadoria e os lifestyles.

Mais uma vez, não tem necessidade de abstrair aqui, mesmo que seja pela via psicanalítica. Todo o recente filão de seriados e filmes que se sustentam no hiperrealismo da morte descobriu isso e explora uma sensibilidade correlata. Se você já viu CSI, House, e os últimos filmes nacionais e internacionais que se comprazem com fraturas expostas, cadáveres decompostos, e toda a pletora de maldades que o mundo engendra, sabe do que eu estou falando. São programas de uma época em que a possibilidade de afirmação viril (que pressupõe coordenadas socioeconômicas do pré-guerra, isto é, a primazia da vida pública nas mãos do homem) já foi superada, e em que os ideais de vitalidade que lhe eram peculiares (que ao homem, guerreiro, acumulador capitalista, reprodutor, etc, sempre estiveram ligados) perdem força. Aparecem dessubstancializados, tanto quanto a afirmação de sua negação, para desespero dos que lutam pelas minorias, mas para a alegria dos diretores de marketing e da parcela dos incluídos que disso tiram proveito.

Quanto mais a ação política de subversão total do sistema está emperrada, mais a atividade bandeia para a esfera da fantasia, da imaginação, da cultura, impulsionada justamente pelos focos de resistência. Verdadeiro parasita da crítica que foi feita da sociedade partiarcal desde o XIX, a cultura pop atual se alimenta justamente da perversão dos impulsos avançados que, desde o XIX até a década de 70 do XX, perpetuavam tal crítica. Hoje esse processo é tão vertiginoso que o lapso de tempo entre crítica e instrumentalização foi suprimido.

Em todo caso, o crepúsculo do homem, reciclado, presencia o tímido triunfo da morbidez, da sensibilidade aguçada quase doentia e sem lastro real, puro sem-limite das imagens, que fazia, na origem, contraponto ao domínio do homem integrado e exclusivo explorador do sistema de produção de mercadorias: a imaginação doentia e cínica da face feminil do Zeitgeist.

No XIX, o alcance de limite semelhante deu luz ao feminismo, à poesia moderna, ao cinema, às grandes lutas políticas, etc. O primeiro nome que Baudelaire pensou para seu livro de poemas foi "As Lésbicas". Nele já está contida toda a combinação ambígua entre apelo e repulsa pela sociedade de massas; imaginário noturnal; morbidez; fascínio dividido entre antiguidade viril, ingênua, e modernidade efeminada, reflexiva - e tudo isso era pra se condensar na imagem heróica da mulher que se nega à reprodução e à funcionalização da vida. Agora, no século XXI, o alcance do mesmo limite sustenta a desgraça mundial que estamos testemunhando e cospe malemal uma Lady Gaga que amanhã certamente será esquecida...

Um comentário:

  1. Não pude assistir o tão comentado "Alejandro" (minha conexão é muito ruim aqui), mas li o artigo do Mastroianni e seu post. Na verdade, nunca vi sequer um clipe de Lady Gaga – só ouvi trechos de suas músicas. E, contudo, estou aqui cad...a vez mais interessado neste fenômeno…

    Assistirei com calma tudo que ela produziu mas, por ora, me restrinjo a um comentário muito pontual (e talvez repetitivo para você). Concordo que "hoje esse processo [que alimenta a cultura pop] é tão vertiginoso que o lapso de tempo entre crítica e instrumentalização foi suprimido". Neste sentido, o que mais me instiga não é a mercadoria perfeita (com a obra de Gaga, que incorpora o processo e o recicla em seus próprios termos), mas os produtos "alternativos" que emulam um espaço diferenciado no qual a crítica ainda é possível.

    Vender-se como Madonna (sua lembran... See Moreça da cowgirl da era Bush foi certeira) carrega formalmente tanta, ou talvez mais, ironia que se vender como Green Day ou Michael Moore. Produtos como "American Idiot" ou "Fahrenheit 9/11" (pegando a onda de "anti-americanismo" mundial graças ao descrédito do Bush) são inócuos e óbvios num contexto de "democracia plena" (sem contraponto dialético real).

    Sua leitura do "hiperrealismo da morte" nas séries de tv e nos filmes como impossibilidade de "afirmação viril" também é muito interessante – embora eu precise pensar a respeito. Acho que talvez haja mais coisas (importantes) em jogo nesta estética.

    Penso em uma relação decisiva entre este "hiperrealismo", personagens "supra-humanos" (e que talvez afirmem aquela "virilidade" em suas características especiais) e uma trama centrada em algum "mistério indissolúvel"(forças ocultas, corporações gigantescas, seitas religiosas, etc): "Lost", "Fringe", "The Mentalist", "Dr. House", "Código DaVinci", o pioneiro "Arquivo X", "Matrix", "Efeito Borboleta", "Avatar", "O Senhor dos Anéis" e mesmo o "De olhos bem fechados" de Kubrick ou a releitura de "Planeta dos Macacos" do Burton têm pelo menos um pouco destes elementos.

    Como se "1984" de Orwell fosse fichinha: não são blocos políticos ultra-controladores, mas apenas um bloco de hegemonia que aplica tortamente a idéia de "Estado mínimo" e que já não precisa controlar os cidadãos (que aderiram a máquina do mundo e hoje são "consumidores").

    Outra questão neste contexto seria a proliferação dos Reality Shows em circuito mundial: um simulacro de vida concentrada em seus "momentos decisivos" e a possibilidade sempre latente de ser um dos escolhidos para os 15 minutos de fama destes programas. Enfim, muita coisa para conversarmos.

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