quinta-feira, 22 de julho de 2010

Silêncio, vai começar o desconcerto - sobre uma vista à Sala São Paulo.

Este post nasceu de uma discussão sobre a autonomia da música em relação às antinomias sociais de que ela é produto. Também de uma visita à Sala São Paulo, na ocasião de um concerto de música contemporânea.

***

O programa:

Iannis Xennakis (1922-2001)

Peaux (para seis precussionistas)

Gérard Grisey (1923-1998)

Partiels (para dezoito instrumentistas)

Györg Ligeti (1923-2006)

Seis bagatelas para quinteto de sopro

Allegro con spirito
Rubato. Lamentoso
Allegro grazioso
Presto ruvido
Adagio. Mesto (Béla Bartok in memoriam)
Molto vivace. Capriccioso

Concerto para piano

Vivace molto ritmico e preciso
Lento e deserto
Vivace cantabille
Allegro risoluto, molto ritmico
Presto luminoso: fluido, constante, sempre molto ritmico

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Depois que postei, ia complementar: quanto melhor é música, mais o ódio aumenta. E o ódio faz lembrar que a autonomia daquela música é relativa. Muito relativa mesmo. Ou melhor, o que fode é o fato de que, muito embora a música em si domine seus materiais e mantenha-se autônoma, as condições de fruição dela não são. Principalmente aqui, no Brasil. E levando em conta que a ideia de autonomia inclui também as condições de reprodução e fruição, essa ideia de autonomia fica comprometida. Não está colocada para nós, brasileiros, pertencentes a um lugar secundário na estrutura de produção mundial.

O que está colocado para nós?

Fora da sala de concerto, ouvindo em casa, pensando, aprendendo, fruindo à distância, aquela música pode ser ouvida. Mas sob essas condições, suas contradições só estão domadas pela distância estética que a sala de concerto destrói (pelo menos da minha perspectiva). Afinal, na sala de concerto (especialmente a Sala São Paulo), a atmosfera de proximidade com os altos louros da cultura, em si também contruída - mas construída para a classe dominante (e para a média só na condição de voyeur) - é mais forte que o distanciamento que a música pressupõe. E isso faz lembrar que mesmo a autonomia interna da obra é derivada da possibilidade de instrução do compositor, dos músicos e dos "contribuintes" que é sempre desigual. Faz também lembrar que a escuta "em casa" só é possível para quem tem certas condições. Cadê a autonomia?

A gente podia tentar resolver a coisa por si mesmo: passar longe daquela porra e se contentar com a audição eletrônica, onde dá pra ouvir a música como se aqui fosse lá. Um piscadinha, uma ajeitada no travesseiro, janela aberta para o calor não incomodar, estamos ouvindo Wagner em Bayreuth...

Mas não dá pra fazer isso também. Pra ter uma audição completa, é preciso ouvir ao vivo. Como efeito, a escuta ao vivo tem tanta importância quanto o prospecto de reprodução, que é levado em consideração pelo compositor desde o final do XIX. Por isso, é necessário encarar a audição ao vivo. Mas, ainda assim, sempre que saio de um concerto, fico me perguntando se inclusive essa possibilidade não é comprometida pelo ódio inevitável que a cultura musical aqui no Brasil suscita. O fato de tudo aquilo não ter sido feito pra classe média - pelo contrário, ter sido feito com o roubo da possibilidade de a classe média (nisso me incluo) entender imediatamente aquela música - faz com que a audição fique "complexada".

Não importa que isso também seja verdade para a elite, com sua cultura pret-à-porter. Nós, como eles (não todos, alguns são realmente educados) ouvimos tudo e não sabemos o que ouvir. Mas a diferença é que não compreender não é um problema pra quem só quer tomar pró-seco ouvindo os meninos da osesp nem pra quem já compreende, ouve bem e executa. É um problema só pra quem, por motivos de origem, quer comprender, ouvir e executar bem e ainda não consegue (conseguirá um dia?). A insuficiencia põe a gente como bicho que fica ali, se esforçando pra entender o lance, e acaba tantalizado, meduzado, integrado à força no ritual de luxo e estupidez geral.

O pobre (se não tiver talento e por isso nem desejo de tomar contato com aquilo) corta imediatamente sua relação com a música erudita. Neutraliza-a como "frescura de playboy". Pra ele fica só a faxada esdrúxula da antiga estação sorocabana. Pra quem está e não está nessa condição, não. Uma ambivalente promessa de formação se propõe. Aí é que a coisa complica. Isso é que é difícil de suportar. Isso é que precisa ser levado em consideração quando se fala da autonomia da música em relação às antinomias sociais. Essa "autonomia" exclui sumariamente os pobres sem talento e captura a classe média e os pobres talentosos.

Enfim, eu não acredito mais na música que ouvia quando era moleque porque quando consegui pensar sobre ela (estudando), vi que ela não tinha fundo. Tudo ali era puro efeito e material derivado, rijo, mal articulado. Mas não era só pela falta de consistência interna que aquela música não parava de pé. O que parecia ser belo nela era horrível, não só porque na verdade era pobre musicalmente, mas porque servia pra contentar as pessoas (que só conheciam aquilo e por falta de instrução não poderiam superar esse horizonte) com uma beleza mentirosa.

Pois bem. Paradoxalmente, a escuta na Sala São Paulo provoca um efeito parecido, só que com música boa. Como o rock, ali, ela não é verdadeira. Só que, nesse caso, não pelo núcleo do ritual (a música) ser falsa, mas por devolver como fruição deslumbrada a impressão do quanto o ouvinte não está à altura das obras que, naquele ambiente, fica assimiliada ao entorno. Para o estudante que não se identifica com o ritual dos estudantes de música (espécie de sacerdotes - o que foi aquele cara da música tirando o seu sarro porque você vinha da filosofia e não da música?), isso é mais patente ainda. Assim como o fã de rock, você é convidado a esquecer de si, das partes da música que acha engenhosas e do seu gosto para mergulhar no espasmo coletivo (dos outros). Ali, a música faz a gente esquecer das coisas em nós que são substrato pra que possamos uma dia compreendê-la (privilégio inclusive) bem como do estudo que estamos acumulando (privilégio inclusive).

Assim, a Sala São Paulo desmente a escuta informada. Ali é inútil compreender. E a insuficiência da compreensão faz a gente lembrar que a música não quer só ser compreendida. Ela quer ser ouvida e executada e isso não tem chance de ser realizado sem virar ritual da exclusão e desmentir a universalidade que supostamente estaria na base dessa "autonomia" da música boaSe isso j é claro pensando no mundo de coisas que é preciso estudar para finalmente ouvir, fica mais claro ainda pensando naquele lugar em que tudo suscita reverência, em que a própria possibilidade de distanciamento qualifica o comentário que vale mais. O estudo, ali, vira uma forma entre outra de adequar-se ao ambiente em que o comentário mais informado vale menos do que a assinatura da cadeira. E a possibilidade de não dispor de recursos pra continuar tendo "uma vida musical", a grana insuficiente, o material nem sempre confiável, as perspectivas difíceis de estudo dão vontade de desistir de tudo.

Não quero uma proximidade mentirosa da música como a que têm os porcos da cadeira cativa. Quero uma verdadeira, um domínio e aí vou ver o que faço com isso, se viro faraó embalsamado ou se rompo com a coisa de algum jeito. Mas a experiência que eu sempre tenho na Sala São Paulo ameaça inclusive essa minha mínima autodeterminação.

Por todos esses motivos, não é lá que a autonomia da obra sobrevive.

A ideia de autonomia da música (como pressuposto de seu papel crítico) bem podia fazer sentido em um país e em uma época em que 60% das cadeiras de teatro estavam reservadas pelas associações de trabalhadores. Podia fazer sentido numa cultura em que a alfabetização musical acontecia no ginásio. Era relevante para uma cultura em que, antes do concerto, qualquer um poderia comprar a edição de bolso da partitura da noite por merreca e acompanhar o ritual inebriante com atenção. Já aqui, me desculpe, o reconhecimento dessa autonomia soa como escárnio à insuficiência do nível geral de consciência, sarro da disposição extremamente desigual das oportunidades de educação e como complemento da aura de mistério que qualquer concerto do Rachmaninoff partilha com a obra mais avançada do Xennakis.

Antes de ser racionalizada, essa comprensão de como se a cultura se alimenta dos sonhos dos homens é vivida como medo, um medo ancestral. Sem requisitar muita dignidade para a metáfora, é como se a gente aparecesse diante desses colossos na condição do índio que quer exorcisar com um feitiço qualquer. Tem algo de sexual nisso. A gente se sente emasculado, castrado, querendo parar a máquina com a força do pensamento. É como se toda a nossa energia vital tivesse sido domada por uma máquina de fazer feiras e esfinges e nos restasse apenas o pavor balbuciante.

Se eu não me engano foi isso que o Baudelaire registrou nesse poema que, não por acaso, está colocado em "As flores do mal" quase como abertura da sessão Spleen e Ideal:


Obsession

Grand bois, vous m'effrayez comme des cathédrales;
Vous hurlez comme l'orgue; et dans nos coeur maudits,
Chambres d'éternel deuil où vibrent des vieux râles,
Répondent les échos de vos De profundis.

Je te hais, océan! tes bonds et tes tumultes
Mon esprit les retrouve en lui; ce rire amer
De l'homme vaincu, plein de sanglot et d'insultes,
Je l'entends dans le rire énorme de la mer.

Comme tu me plairait, ô nuit! sans ces étoiles
Dont la lumière parle un langage connu!
Car je cherche le vide, et le noir, et le nu!

Mais les tenèbres sont elles-mêmes des toiles
Où vivent, jaillissant de mon oeil par milliers,
Des êtres disparus aux regards familiers.

*****

Obsessão

Grandes bosques, de vós, como das catedrais, sinto pavor;
uivais como órgãos; e em meu peito,
Câmara ardente onde retumbam velhos ais,
De vossos De profundis ouço o eco perfeito.

Te odeio, oceano! teus espasmos e tumultos,
Em si minha alma os tem; e este sorriso amargo
Do homem vencido, imerso em lágrimas e insultos,
Também os ouço quando o mar gargalha ao largo.

Me agradarias tanto, ó noite, sem estrelas
Cuja linguagem é por todos tão falada!
O que eu procuro é a escuridão, o nu, o nada!

Mas eis que as trevas afinal são como telas,
Onde, jorrando de meus olhos aos milhares,
Vejo a me olharem mortas faces familiares.

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