Este post surgiu de uma discussão sobre a música pop dos anos 80.
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New Order, Joy Division, The Smiths, The Cure estão associados pra mim. Não só porque tocavam em sequência nos mesmos lugares. Não só porque são da mesma época...
O bordão quadradão e sempre igual da guitarra metálica, a bateria hiperregular, coisas que nessa música sugerem mecanização... em contraste com as letras sentimentais e a oscilação entre subdominante e tônica, o canto sem vitalidade, distante, e ao mesmo tempo sensual... enfim, essa mistura sui generis lembra demais a solidão na cidade que eu ainda não conhecia.
No seu aspecto mais agônico: jovens agarrados à sensibilidade e à esperança, temendo o trator do futuro.
Eu não sabia o que isso significava ainda. Era o aspecto sentimental não-derramado mas irremediavelmente romântico que me atraía. Era a revolta do coração que não podia ecoar unânime e se tingir de cores mais claras. Era como se agarrar-se à dor em meio às construções de metal e vidro e os velhos armazens decaídos ainda fosse pelo menos sentir alguma coisa.
E, assim, conhecer os segredos da noite - que fundia os homens em sonho - constituía uma diferença com relação a quem vivia à mercê dos segredos da cidade - que, prometendo liberdade, os engolia e escravizava durante do dia.
Eu ainda não morava aqui. Vinha aos inferninhos porque o pessoal de Sto André que eu conheci na época (alguns dos quais tornaram-se amigos inestimáveis meus) gostava desse tipo de lugar. Pertencer e não pertencer a essa cultura, portanto, para o bem e para o mal, criava uma certa distância entre mim e os costumes gótico-dark-apocalípticos dos meus camaradas. Por mais que pintar o cabelo de vermelho e as unhas e os contornos dos olhos de preto, andando sempre como um vampiro, fizesse sentido pra mim nessa época...
Hoje sou grato igualmente pela experiência e pela distância. Pois, na minha opinão, a vontade de morrer por amor ao humano é, nessas canções, inseparável da beleza da expressão do sentimento, da sensualidade, etc. E não tem nada a ver com uma defesa lúcida de condições melhores...
Já para os meus amigos do ABC, especialmente os mais velhos, era (e talvez ainda seja) diferente. Para eles, ficava mais patente nessa música o aspecto sentimental e inocente, que lembrava o começo da adolescência na década perdida. Sim, no coração deles, gostar dessa música preservava muita coisa. O passado, a diferença com relação aos boys e o espírito cosmopolita profundo. Ao contrário dos cinicamente mais bem adaptados, eles sofriam com a modernidade e não podiam se integrar a ela por serem sensíveis demais ou faltar-lhes condições.
Para eles fazia um sentido especial amar e odiar a cidade ao mesmo tempo. Era necessário apalpar seus cantos escuros e abandonados à noite e depois desfazer-se no amálgama de corpos do dark room. Eles eram os que sentiam na pele os sacríficios que o presente fazia ao futuro que nunca chegou. Eles pagavam a promissória, como deserdados de um futuro brilhante. Eram gente que em comum tinha o desespero com a perda das raízes tradicionais (se dá pra dizer isso no Brasil). Viviam as promessas e as dificuldade da crise da família patriarcal que explodira na década de 80. Mal acabara a ditadura e essa gente já sabia o significava pairar no ar, com o país em plena recessão, em contraste com a liberdade democrática propagandeada.
Ou melhor, talvez não soubessem, tamanha a confusão ideológica da época. Mas certamente procuravam adivinhá-lo nas letras de um Morrisey. O desejo de um futuro transformava-se em apego exacerbado ao sofrimento em comum que, por mágica, podia ser revertido pelo amor finalmente liberto das obrigações patriarcais:
And if the ten ton truck crashes into us,
to die by your side is such a heavenly way to die...
Enfim, como essa música os compunha, tudo o que havia de mortífero nela tornava-se para eles imediatamente positivo, de tão identificado que estava com o que eles concebiam como amor e esperança. E no entanto, quando eu os conheci, ir às baladas em que se ouvia esse tipo de música já era um pouco como prestar uma homenagem póstuma a esse tipo (tão estéril) de resistência. Era bonito, mas tristíssimo...
Hoje, depois de "muitas e ruins" dessa época (quando essa vontade de morrer por ser mais sábio e sensível que o mundo concretizou-se em um episódio que me dizia respeito muito de perto) não consigo ouvir esse tipo de rock sem sentir um horrível frio na espinha ...
Sei que muitos desses meus amigos se ajeitaram na vida. Espero que estejam bem, inclusive aqueles com os quais não tenho mais contato. Mas espero principalmente que a pessoa do referido episódio não esteja mais sofrendo como estava quando passava o fim de semana inteiro ouvindo The Cure. E que tenha descoberto maneiras melhores de agir no sentido de realizar as esperanças daquela época....
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A repetição, herança do krautrock (o rock alternativo alemão do começo dos setenta que chega a partir da influência destes que recebem Lou Reed, Bowie e Iggy Pop em suas fases em Berlin) e o clima, gerado pela condução das melodias ser pelo... baixo são importantes para entender o que eles colocam. Quase uma anestesia frente ao progresso. O momento gótico, algumas vezes reflexo de refluxos políticos em épocas conservadoras são como termômetros, afinal, estas bandas que citou vem do punk, eram bandas punks que criam outro repertório e, principalmente, num mundo em que mudar o mundo se torna impossível, as figuras sinistras e conservadoras da sociedade, no caso do final dos anos 70 com Tatcher à frente, transmutam o reacionário em figuras do horror.
Lembre-se que os romances do renascimento gótico do XIX tem também essa pegada, e que, por exemplo, a Mary Shelley é na verdade filha do Godwin, um dos inspiradores do anarquismo. Estas monstruosidades novas que são frutos da ação humana e não divina como Hyde ou Frankestein são críticas quase rousseauístas da sociedade.Mas por outro lado é também uma inflexão apassivadora de uma subjetividade que narra esta prisão num mundo mal e destruidor que não é estável e que esconde monstruosidades, algumas partilhadas pelos mesmos que as encaram se aceitar. Spinosianamente são paixões tristes, diferentes do ódio do punk e que transformam aquela resistência subjetiva numa atitude de olhar de frente para o que se teme, ma sem as esperança de mudá-lo.
Esta inflexão aparece no começo do metal (primeira capa de demo do Iron Maiden, ou Motorhead) e nas primeiras bandas punks não anarquistas como Exploited inglesas, são todas, mesmo sem apoiar o ciclo de greves perdidas e os trabalhadores, como os punks, anti-Tatcher e anti-neoliberais. É uma forma de preservar uma subjetividade que não é ainda vinculação total aos novos valores sociais progressivamente mais conservadores.
Bom, como ex-gótico e amigo de pesquisadores, tenho esta opinião.
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Pô, legal saber o que essas bandas representaram no contexto original. Sempre intui essa relação com o punk (está presumível na maneira de tocar, na harmonia e no lance "expressão direta"), mas não conhecia a história toda. Não sabia que essas bandas eram punk com semancol. Isso explica muita coisa, a violenta guinada subjetiva, por exemplo. Que ainda me parece ser problemática, mesmo em horizonte fechado...
Entroncar esse movimento no romantismo gótico era mesmo a ideia. Disso eu sabia. A imaginação do Morrisey leva pra esse tipo de monstruoso, a sustentação da paixão comum conduzindo ao carinho pelo corpo inerte da "namorada em coma". E o vocabulário muitas vezes é arcaizante, como se estivesse pasteurizando um conto de terror (usa a segunda do plural no auxiliar, e outras coisas que caíram em desuso).
Bacana a relação do ódio punk com a paixão triste do Spinoza. É a mesma que estabelece sequência entre o punk e esse tipo de som, em geral.
Já no metal, nada disso sobrevive, apesar de se perpetuar em imagens e atitudes. O Iron Maiden é ambíguo até não poder mais. Compõe "Run the hills" (sobre o morticínio dos índios americanos), mas fica se alimentando de uma "cultura de veterano de guerra" que até hoje sustenta a dignidade da direita americana, por exemplo. Quer conciliar o romantismo gótico com o culto retrógrado do guerreiro medievalesco. Enxerga a própria guerra fria e a segunda guerra como chances perdidas de postura afirmativa ("Aces High"), sendo que, ali, o capitalismo se afirmou com uma bomba atômica.
Outra coisa é saber se sustentar essa subjetividade "sensível em tempos rombudos" não é, em si, uma forma de capitulação mais digna. E não digo isso querendo me achar mais esperto ou digno de quem se formou com essa cultura. Era o que estava colocado (o tom do texto deveria dar conta disso).
De qualquer maneira, a intenção do post era dar um depoimento sobre como se vivia isso tudo, não na Europa, aqui no Brasil. E não quando essas bandas se lançaram, mas sim durante o revival que começou na virada do século e só deve ter se esgotado há uns dois anos. É no máximo com isso que posso contribuir para o assunto...
Legal sua resposta porque ajuda a entender como a música da capitulação dos recalcitrantes (prefiro enxergá-la assim) teve função pros adolecentes dos anos 80, que viveram a inversão das promessas da abertura democrática e a lenta corrupção da esquerda dominante.
Não é por acaso que quando conheci tudo isso, aquela cultura gótica já parecia até o tutano inautêntica (ainda que me servisse um pouco, pessoalmente). Com o decorrer dos anos Lula, viu-se que mesmo a consagração das espectativas momentaneamente contidas pelos anos PSDB já estavam corrompidas. A esperança era verdadeira, ali, como luta antes e durante a ditadura (ou seja, no passado que o presente arruinava), não como possibilidade não-realizada depois da abertura. A resistência tanto quanto a cooptação eram falsas. E esse mercado se alimentava das esperanças que não cabiam na política...
Ao mesmo tempo, você tem razão. Se a política não dá vazão para essas esperanças, The Smiths sustenta o desejo não realizado. Por isso o papel dessas bandas é dúbio, não coincide com uma capitulação simples. Senão, pra que diabos serviria ficar pensando em cultura de massas hoje, quando o horizonte continua fechado!?
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