terça-feira, 24 de agosto de 2010

As reprises do Cine Baronesa

Estava ouvindo hoje o "Cine Baronesa" do Guinga. Eu passei a gostar muito do Guinga, depois de vencer a irritação com o falso sublime que ele respira. Mas, hoje, não sei o que houve, percebi de novo que esse disco (e talvez toda a produção do Guinga) veio de uma relação oblíqua com uma saudade do Brasil antigo; saudade do samba dos anos 40 e da bossa nova. É a antiga, e supostamente belíssima MPB, morta, tornando-se fermento para uma renovação que só aparentemente serve apenas para ele emplacar discos e ir pro festival de Montreaux.

Como se percebe isso no disco? Pensando nos arranjos, que, ao mesmo tempo, imitam os arranjos anteriores à década de 50 e a música de cinema, que era a sua inspiração original ("Cine Baronesa" é um cinema antigo no centro do Rio).

Enfim, visto da perspectiva de alguém que ouve música superficialmente, esse disco é genial, refinadíssimo. Tanto mais quanto caia no gosto preconceituoso, caviar na boquinha, azeitado no melhor do swing, do choro e da bossa. Já para um europeu educado em música, o "Cine Baronesa" vai parecer interessante. Só interessante. Pitoresco até. Meio-educado. Até um pouco pobre...

Pobre sim. Pobre porque, até no que há de mais avançado tecnicamente no disco, a estrutura harmônica - que, desenvolvendo latências do Tom Jobim, é inaudita na canção popular brasileira (nem o Chico fez o que ele fez) - soa a Debussy, temperado por Miles Davis, ambos reciclados.

Ou seja, se o sentimento estético-político dessa música é o do progresso saudoso, ao mesmo tempo "refinado" e demagógico, isso não está só no sentido histórico dessa "saudade" do Brasil antigo vitaminando a busca do Brasil novo, em que o melhor do popular e do internacional se acomodam sem solavancos. Está na própria música. E, é claro, no fato de que tudo o que nos anos 40 parecia moderno é hoje recauchutado para soar sublime e ajuda a sobrepôr os sonhos de elegância desenvolvimentas do pré-golpe aos atuais.

Tem gente que critica o Guinga por causa dessa coisa meio crepuscular dele, triste, melancólica, sem isso necessariamente ter a ver com o Brasil.

Acho uma idiotice esse argumento. Coisa de gente para quem a alegria e a beleza têm de se alardear como tais, de preferência com uma bateria por trás, na praça da apoteose, ou atrás do trio elétrico. Nada contra, claro, se esse tipo de gosto narcotizado pela intensidade não fosse burro à sua maneira.

Aliás, em nenhum disco do Guinga existem só canções tristes. Tem sempre a malandragem do choro levantando a moral. E, de vez em quando, muito de vez em quando, um samba, daquele jeito, à la Guinga, super-complexo.

No caso do "Cine Baronesa", há, vejam só, dois sambas. O espetacular "Orassamba", com letra de Aldir Blanc, e um outro, com letra de Ney Lopes.

Como ele começa? Afirmando: "Rio de Janeiro, Rio do Funkeiro, etc". Como ele termina? Ponderando: "Baby, baby, baby, I love you/ mas o meu samba não é de Bangu,/ um bairro bom mas quente pra chuchu,/ minha moça bonita".

Como não perceber, aí, a atitude de quem se serve da tão ilustre "tradição da música brasileira", mas desde que ela não venha manchar muito a complexidade e a sensibilidade do artista com as coisas lá de Bangu? E isso vindo de um cara que viveu a maior parte da vida no subúrbio, hein? Lula puro.

Mas tá tudo certo, tá tudo em casa. Que o Guinga continue perseguindo suas miragens e produzindo essa música linda. Somada a ambivalência dele à do Aldir Blanc, com essa missão de transformar o subúrbio em material de exportação, ganhamos discos de bom nível e roubamos um pouco da atenção das chatices novas. Empate, 1 a 1.

Mas não me venham dizer que isso é o que há de melhor na música popular mundial. Desculpa. Não é.

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