terça-feira, 24 de agosto de 2010

Uiva, Lupicínio. Uiva!

Como ser radicalmente passional sem cair no brega - lições que a Bossa Nova ignorou? Uma prosódia impecável, versos sem ostentação, finais com chave de ouro. E principalmente, uma sinceridade gigantesca. Afinal, a vingança é realmente um sentimento muito doce...

http://www.youtube.com/watch?v=ZXFginzWtFc&feature=player_embedded#at=...185

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Vingança

Eu gostei tanto,
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram...
Bebendo e chorando
Na mesa de um bar,
E que quando os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz,
Não lhe deixou falar.
Eu gostei tanto,
Tanto, quando me contaram
Que tive mesmo de fazer esforço
Prá ninguém notar.
O remorso talvez seja a causa
Do seu desespero
Ela deve estar bem consciente
Do que praticou,
Me fazer passar tanta vergonha
Com um companheiro
E a vergonha
É a herança maior que meu pai me deixou;
Mas, enquanto houver força em meu peito
Eu não quero mais nada,
Só vingança, vingança, vingança
Aos santos clamar.
Ela há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada,
Sem ter nunca um cantinho de seu
Pra poder descansar

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As pedras hão de rolar x as águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar?

Enquanto houver força em meu peito?

Aos santos clamar?

Não é tão sem ostentação assim. Tem um lado de beletrismo intencional (leve mas tem) nas letras dele. Daí vem o tom pomposo e o ridículo, que fazia com que seus sambas tivessem um efeito cômico, não só passional.

Sei lá, acho que a graça é essa. O que ele diz é pesado, sofrido canalha muitas vezes, sempre inflamado. Mas as situações que ele conta não são só sérias. São também ridículas do ponto de vista geral da época. Afinal, a traição (bem como sofrê-la) era tabu.

É esse descompasso que as palavras antigas revelam e escondem ao mesmo tempo. Elas conferem dignidade falsa à dor real, que só pode ser expressa como algo ridículo, pois só é admitida, e como engraçada, no outro (o corno é sempre o outro).

É o pré-Falcão, pô. O Falcão, qe só virou brega porque hoje o ridiculo é ser fiel e dispensar o banquete de oportunidades afetivas da vida, não é mesmo? Quem faz canções inocentes de amor, usa o que? Palavras arcaizantes e clichês antigos.

Não que haja alguma coisa de especial nisso...

Enfim, o beletrismo e a ostentação, nele, fecham o seguinte pacote: homem ambiguamente provido de todas as tarimbas tradicionais, que, confrontado com sua falta de controle sobre a mulher e a vida, se autoriza a ser abertamente machista, mas só pode sê-lo sendo um pouco ridículo pois está com a honra maculada e, além disso, precisa compensar a desvantagem de origem social.

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