segunda-feira, 3 de maio de 2010

Balada do soldado

http://www.youtube.com/watch?v=adUYkPUI-KQ

Letra do Brecht, canção do Kurt Weill.

A letra vai listando, como numa toada marcial, coisas que a esposa de um dos soldados recebe do front de guerra. Por enumeração encadeiam-se, ao mesmo tempo, as cidades de origem, se não me engano, na sequência exata da expansão da Alemanha na guerra.

O que ela recebe, durante toda a canção, parece ser o que o marido mandou como "lembrança", para que ela saiba que ele não está morto e que o esforço de guerra vale a pena. Mas pode não ser só isso.

Como o bordão "what you've sent to the soldier's wife?" é várias vezes repetido sem que se especifique quem é esse soldado, além do possível adultério esfregado na cara do companheiro que está ali com eles e não pode fazer nada, está pressuposto aí, também, o derrisório joguinho de superioridade dos porcos, comparando competitivamente as bugigangas que conseguiram acumular no caminho e mandar para a mulher do outro.

Bugigangas ao acaso, não. Mais provavelmente são espólios de guerra, arrancados aos mortos empilhados ao vai da marcha.

No final da letra, chega o último presente, da Rússia, de onde o general inverno preparou para a esposa um véu de viúva. E isso muita tudo. Terminada a canção, o ouvinte não pode evitar a suspeita de que o soldado estivesse morto desde o começo e de que tudo não passasse ou de um jogo de competição entre os soldados candidatos a sucessores, ou de um ato de respeito para com o morto, preservando a mulher das más notícias (a escolha fica ao cargo de quem acredita mais ou menos em solidariedade, depois do que aconteceu).

***

Não sei se a PJ sabe, mas acertou em cheio na interpretação.

Claro, não a interpretação cantada e tocada. Não com essa vozinha depressivo-sedutora (parece a Courtney Love!), esse teclado vampirinho de fundo, esse banjo bem microfonado misturado à guitarra semiacústica sem susto. Resumindo, não com as suas (ou as da gravadora, tanto faz) escolhas de arranjo - que sugerem mais artesanato, precariedade calculada, do que qualquer outra coisa. Não com o tratamento pop que, por contrabandear o pobre como elaborado, bloqueia a genialidade do jogo entre riqueza e pobreza, refinamento e precariedade, sensibilidade e embotamento que a letra pressupõe

Mandou bem é no clipe.

Acertou ao escolher como setting essa cobertura, igualzinha a um galpão abandonado. Acertou ao inventar a pose melancólica para a câmera, ostentando produtos caros, lembranças de amor que toda mulher gostaria de receber.

Digamos que no começo ela é uma versão desvitalizada da Madonna, sem rebolado, mas dizendo exatamente como a superstar para todas as mocinhas: "quando eu gozo, mesmo sozinha, é mais gostoso do que quando vc goza, baby. Eu gozo com sapatos caros do meu marido heróico, que, por força, fica longe (mesmo que eu queira, mesmo que eu não queira) ". Ao final, quando chega a má notícia e as luzes se apagam, ela desaba. Sem perder a pose decadente, é claro.

Como na canção, sobram de pé apenas as tralhas espalhadas no chão e a cobertura cara e desmobilhada. Ali, bem alto, onde as bombas (os canivetes, o fisco, as propagandas indesejadas, os sequestros, o sofrimento alheio) não causam problema. Abrigo precário, embora confortável. Abrigo confortável, embora precário. Em todo caso, fruto do continuado roubo dos desejos dos outros, a substância mágica por cujo domínio ou falta de domínio os seres humanos se orientam ou se perdem na vida. Roubo do trabalho dos outros, ou das horas de vida dos outros, como quiserem. Roubo em tudo semelhante ao racional e planejado extermínio seguido de pilhagem nas guerras. Inclusive no que diz respeito à ilusão de liberdade, que os soldados, acuados, ainda conservam para esmagar ou ajudar seus pares.

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