quarta-feira, 5 de maio de 2010

Panzer attack - ou de como quase cedi ao impulso roqueiro e por pouco não larguei um estudo da harmonia em Bach.

Venho planejando há mais de um mês, mas agora finalmente consegui começar. Sim. Desde a semana passada, lá estou eu, botando em prática um plano de estudos de harmonia, armado do que aprendi no meu curso técnico nos idos da década de 90, do que venho lendo desde então, das correções do meu professor atual, do youtube e de partituras compradas ao sebo ou xerocadas (digo, só 10% xerocadas).

Desta maneira é que eu vou tentar aprender como funciona a harmonia em obras musicais de verdade, coisa que até hoje ainda não fiz (e não tive oportunidade de fazer) com rigor.

Pois bem. Eu disse "desde a semana passada". Se eu me conheço bem, isso quer dizer que há pelo menos um mês eu estou com a ideia na cabeça. E que, no mínimo há uma semana, comecei a me mexer. Pois é. Foi assim mesmo. Foi bem na semana retrasada que eu decidi como iria começar. A primeira obra escolhida foi o Prelúdio I do Cravo bem temperado de J. S. Bach. Dei uma olhada na partitura e pensei: "vai ser moleza!". A peça inteira estava em Dó maior, seguia um padrão de arpejos que se mantinha do começo ao fim, usava e abusava de baixo-pedal e encerrava em exatamente duas páginas de uma edição que comprei no sebo (poluída, mal espaçada, ruim pros padrões mais exigentes, ótima pra mim). Enfim, em nada ela apresentava dificuldade aparente.

Nada? Meu amigo... Fique sabendo que me esfolei lendo aquele troço. Estou na metade do que defini como o primeiro exercício, o leve, o mirim, o modo easy, e, no entanto, já posso dizer que, alcançada a duras penas a segunda linha, estava mesmo é dando graças a Deus pelo fato de ao menos aquilo ser em Dó maior, dispensando assim a ginástica mental para entender os acordes.

Pra começar, se a cada compasso (2/4) há um acorde executado duas vezes, há ali por volta de 32 acordes, considerando a extensão da frase de encerramento da peça e as repetições. Além disso, ao contrário do que prometiam meus cálculos equivocados, não aparece naquele simplíssimo primeirinho prelúdio do livro 1 mais do que uma ou outra tríade. A maior parte do tempo, na verdade, o Bach usa tétrades. Quase sempre, ainda por cima, invertidas. Há acordes diminutos cujo grau de origem é dificil de deduzir, enfim, sem pôr nem tirar, um vespeiro para o leitor iniciante.

Não pude deixar de castigar minha soberba em ter definido como simples uma peça do Bach. E, é claro, lembrei na hora das interjeições monásticas dos meus antigos professores. "A racionalidade daquilo! Pura matemática! Quando você pensa que ele está fazendo uma coisa, está fazendo outra completamente diferente! Gênio!". Não por acaso elas ecoavam as exortações dos meus professores de matemática, que pareciam compreender perfeitamente o funcionamento do mundo só porque tinham aprendido Cálculo Integral.

Sim, ignorância é tristeza! E, de fato, às voltas com o abismo de pontos negros do Das wöllt temperiert Klavier, me senti exatamente como me sentia ali, na carteira do fundo, remoendo as tripas para resolver a prova de aritmética da quarta série. Era preciso ser mais prudente, baixar um pouco a bola. Ficaria mais uma semaninha praticando o jogo no modo beginner.

Sucede que o mergulho nas reminiscências foi mais fundo do que parecia. Embasbacado com aquilo tudo, comecei a lembrar das minhas aulas de harmonia. Meu sangue começou a subir, a boca espumava, quase joguei longe a partitura e, no último segundo, contive meu ímpeto roqueiro de estourar o violão na parede. Respirei fundo, busquei um copo d'água, me acalmei.

Na sequência, a primeiríssima coisa em que consegui pensar foi que, no mínimo, deveria haver mais propedêutica nas aulas. Quer dizer, não é que não havia. Havia. Mas isso se a gente considerar que os seguintes dizeres são suficientes para esclarecer tudo o que um aluno precisa saber a fim de compreender o que raios é harmonia e pra que ela serve. Cito:

1)Harmonia não é composição. É a alma da composição, o esqueleto, mas não composição.
2)As quatro regras básicas da harmonia são: não cruzar vozes; partindo de um acorde, fazer os mínimos movimentos com as notas de maneira a que elas formem o seguinte; e, finalmente, não executar 5as e 8as paralelas.
3) Essas regras foram deduzidas e permitem compreender a condução das vozes das composições feitas só até o começo do barroco. Valem para a música antiga, pré-moderna. Até Palestrina, ok. Bach e Mozart já fazem o que querem com isso.

(...)

Trocando em miúdos, todas as regras e conteúdos que eu conhecia me traíram. E, na verdade, o que foi de muita ajuda foi justamente o que eu não sabia. Era difícil entender como raios ele podia transformar, do nada, um I em diminuto, mas foi útil fazer perguntas à antiga papelada escrita por um alemão há mais de 400 anos, exercício como que desaconselhado pelo próprio método de ensino do curso técnico de que tenho saudades sarapintadas de ressentimento.

Que tipo de perguntas? Bom, as mais elementares. Este baixo está se movendo pra onde? Por que aqui neste pedaço a frase estaca e aparece um salto de mais de uma oitava (outra proibição doutrinal dos cursos de harmonia?).

Fazendo isso, a dificuldade de decifrar rapidamente a formação dos acordes não se abrandava, mas pelo menos começou a aparecer de fundo a razão pela qual a partitura estava estruturada daquele jeito. Com mais prática não duvido que seja possível no futuro entender o porquê do uso de cada inversão de acordes, cada dissonância, etc. E, com sorte, acho que posso entender, além a razão de ser prática, real, de os acordes estarem daquele jeito, o que faltou no ensino de harmonia a que tive acesso.

(...)

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