Ler antes Panzer attack - ou de como quase cedi ao impulso roqueiro e por pouco não larguei um estudo de harmonia em Bach
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Sei bem que a intenção de um curso técnico e introdutório de Harmonia é reduzir alguns livros de harmonia (o "Tratado de Harmonia" do Schönberg e o "Curso elementar de Harmonia" do Paul Hindemith) ao básico. Sei que é necessário torná-los apropriados para o treino de condução de vozes em campo harmônico maior e menor, chegando no máximo até a primeira e a segunda inversão e não utilizando mais do que acordes com sétima.
Mas mesmo tendo reconhecido a necessidade de conhecer harmonia para saber como compor com segurança a estrutura de uma canção, ainda me pergundo - como faziam meus colegas, estudantes de MPB, no meu curso técnico - pra que serve isso? Isso realmente nos ensina a como dispor dos acordes? O quanto o ensino desta maneira ajuda a desenvolver a habilidade dos alunos conduzirem vozes com consciência?
Enfim, voltando às reminiscências. Aprendi muitas coisas nos manuais. Conheço os príncípios básicos da condução de vozes, sei como se originam os acordes, domino um pouco da notação da harmonia tradicional e as formações possíveis de um acorde na pauta, etc. Mas isso não me leva muito longe na composição escrita e meu conhecimento de manipulação de acordes continua sendo instintivo. (...)
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Por que estou falando tudo isso? Bom, porque, desde já, gostaria de usar esse fracasso estudantil para questionar uma coisa no ensino em geral, no ensino de música como um todo e no de harmonia em particular.
Pois bem. Me parece que em todos esses casos há uma espécie de medo dos professores de que os alunos se defrontem com as dificuldades dos assuntos. Medo que deve se misturar com algum confuso sentimento de posse sobre um conhecimento que, afinal, é de fato o que os distingue dos que não pertencem à classe savante musical. Que permite que ele possa olhar de cima milhões de instrumentistas, donos de conservatórios, professores de musicalização, professores de outras disciplinas etc. Em todo o caso, o resultado desta atitude é mais ou menos o seguinte. Antes de professores e alunos sequer pisarem na sala de aula, toda a matéria que vai ser ensinada já foi cuidadosamente analisada, passou pelo escrutínio do professor. Em sua cabeça pesaram-se e chegaram a bom termo mil dúvidas sobre o que é possível ensinar a tal aluno em tal estágio de desenvolvimento. Os alunos também já passaram pela sua fase preparação. Dos estertores dos colegas mais avançados, na melhor das hipóteses, ele já ouviu dizer que aquela é a matéria mais difícil em bem pesadas as coisas, inútil do mundo, pois frita miolos e não ajuda ninguém a tocar melhor (como se a música fosse um dom de gênios e passasse, por mágica, do ar que respiramos às pontas dos dedos, captadas por antenas não deterioradas). Paradoxalmente, no entanto, o que se produz como ensino, depois de tantas horas de agruras e de boas intenções , é um produto descarnado, imbecilizado, uma sombra do que a harmonia real é e pode ensinar.
Noutras palavras, deixando de lado essa vitalidade proteica, caótica, pelo bem de se conservar o interesse do aluno, às vezes as condições para que ele aprenda lhe são subtraídas.
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Para começo de conversa, um verdadeiro curso de harmonia não deveria ser precedido de uma mera retomada do mecanismo de formação de acordes e da ideia abstrata de série harmônica.
Fazer isso é imaginar que toda a harmonia depende apenas da descoberta da formação de tríades e das tensões que elas acarretam estruturadas nos campos harmônicos segundo o ciclo das quintas. Isso não é verdade e um procedimento pedagógico que parta desta premissa estará equivocado desde o princípio.
Ao invés disso, seria necessário fazer jus à ideia mais básica sobre a matéria: o fato de a harmonia tonal ser justamente o conjunto das leis de funcionamento do sistema tonal em execução. Sistema que, como todos os sistemas, condiciona totalmente a substância mesma daquilo que ele organiza, não só no nível de combinação vertical dos sons, mas em todos aspectos da música, desde o nome e a característica dos sons até as leis de combinação deles.
Dizendo a mesma coisa de um ponto de vista didático, ao invés de pensar que o aluno é um ignorante completo, ou que, de tudo o que ele conhece, a formação dos acordes é a única coisa útil como prerrequisito para entender harmonia, o professor precisa perceber que todo o ensino de música converge para a sua matéria. Pois quando a gente está aprendendo o nome das notas musicais, quando estamos aprendendo a escrever música, quando estamos aprendendo as armaduras de clave, a geração das tonalidades, a escala diatônica, a sucessão dos tons por sobreposição de quintas (e, portanto, a sequência de aparição dos acidentes de acordo com os tons que eles caracterizam), a formação de acordes, enfim, quando estamos aprendendo música em geral (a música tonal, que se aprende nos conservatórios de todo o Ocidente), já estamos aprendendo harmonia.
O começo do curso, portanto, deveria ser dedicado a sucinta retomada de cada um desses pontos, sob o ponto de vista do uso dos acordes na música polifônica.
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Antes disso, no entanto, vem o lamentável enquadramento que se dá ao curso. Trata-se da primeira aula em que se define o que é harmonia, de onde ela procede historicamente e para que ela serve (...)
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A proibição dos saltos paralelos de quinta e oitava, por exemplo, não deveria ser explicada imediatamente por um critério de gosto muito duvidoso. Ela deveria derivar do fato histórico de que, naquele momento da música, era necessário se evitar a insistência nas quintas para que elas não exercessem uma pressão contrária à afirmação do tom principal; do fato de que era necessário alçançar as dissonâncias e as terças, para que, no jogo entre elas, a tonalidade se caracterizasse. Isso e não a ideia de que as quintas soam mal ou que são estáveis demais é o motivo propulsor da exploração da harmonia tonal.
Acontece que, desde que a música passou a funcionar assim e depois degradou-se a ponto de separar seus produtos mais avançados dos que ainda devoram esse estágio do desenvolvimento música como um abutre, essa realidade não precisa ser buscada nos livros. Ela está presente em germe nas capacidades auditivas de todos os que têm o que se chama um mínimo "ouvido musical". Inclusive o coração da própria definição imbecilóide de "ouvido musical" consiste na habilidade de discernir tensões da estrutura harmônica, suas funções, o sentido em que cada nota, articulada verticalmente às demais, quer seguir. Noutras palavras, partindo do pressuposto (verdadeiro na maioria dos casos) de que o aluno já tem a percepção formada pela música tonal, tão importante quanto buscar as regras é ao mesmo tempo flagrá-las nos trechos de gravações em que elas estão agindo de verdade. (...)
Ao mostrar essa escolha em gravações, os aluno não mais teriam na cabeça a ideia de que aquilo é uma regra, aprenderiam a ouvir as quintas "sujando" a sonoridade buscada. Só aí é que se poderia dizer que os compositores podiam não compreender isso racionalmente, obedecendo a esse princípio por uma questão de gosto.Note-se que, procedendo assim, a regra começa a ganhar validade musical. Abrindo o método pedagógico para os problemas do desenvolvimento histórico daquele momento, o professor faz com que o aluno reconheça auditivamente a razão de ser daquele jeito de compor e, na sua prática músical.
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Claro, para aprofundar essas impressões, é preciso sem dúvida alguma estudar as leis da harmonia, praticá-las com regularidade, descobri-las nas partituras. Em contrapartida, se tais observações não forem feitas, de que adianta saber que é preciso que as vozes se movimentem pouco para formar acordes?
Se ficarmos só por aí, é claro que a harmonia não terá tido mesmo nada a ver com música, nem terá servido para ensinar quem não foi capaz de compreender por instinto, de ouvido, as leis de sucessão dos acordes.
Na minha opinião é exatamente isso o que acontece com seu ensino. Por estar intimamente relacionada ao funcionamento estruturante da música real, a questão parece tão complexa que os professores acabam recorrendo cegamente aos manuais, extraindo de lá princípios descontextualizados, esquecidos que estão da maneira como realmente aprenderam (se aprenderam), ou impacientes que estão diante da visão das dificuldade que, com muito custo, conseguiram superar nos seus estudos (se conseguiram).
O resultado disso? Como bichos adestrados, os alunos ficam ali, pregados à pauta, movendo bolinhas pretas de linha em linha, de espaço em espaço, sem saber como aquilo soa, quais as razões práticas das restrições, o que tudo aquilo tem a ver com o que eles aprenderam até então, e por que são aquelas e não outras as possibilidades de combinação de sons (sim, por incrível que pareça, são sons). Por outro lado, as leis da Harmonia deixam de ser produto e modo de funcionamento da música tonal e ficam pairando, parciais, desconjuntadas, sobre as cabeças perplexas ou habilidosas.
É assim que seu estudo se reduz a um jogo sem porquê e com função opaca, apreensível na prática apenas por instinto, através de um aprendizado que, nesses termos, depende mesmo mais ou menos da acuidade do aluno.
Sendo mais direto. Ensinada dessa maneira, a prática de harmonia se transforma em um ritual absurdo, fundado em um mito cuja alta compreensão está fora do alcance dos alunos, meros mortais. Um mito, ou melhor, a forma espontânea e natural pela qual os homens compreendem a organização igualmente natural do universo sonoro, impassível ao questionamento dos alunos e dominada enfim pelos inciados que se dedicam ao ensino por missão.
De fato, nos cursos de harmonia que se pratica nos conservatórios de todo Brasil, quando se pratica, a Harmonia é um mito.
O que seriam os conservatórios, então?
Bom, de um lado seriam templos onde se cultua um saber acessível apenas aos "escolhidos", aos semideuses feitos da metafísica matéria do talento cujo certo destino é ser elevada ao toque do mestre. De outro, seriam como plataformas de perfuração desajeitadas, contando rasgar sem carinho as rochas mais duras e, por sorte, encontrar as que guardaram liquefeitas a matéria orgânica musical. Quando estouram a boa, loas e injeção de recursos para a escola, sorriso na cara do diretor, candidato à pasta da cultura do município na gestão seguinte. Ao mesmo tempo, independente dos sucessos, deixam para trás um deserto de estudantes cujo empenho não conseguiu sobreviver à força das intempéries.
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