sexta-feira, 28 de maio de 2010

Molto expressivo

As duas últimas concorrentes da mostra Nascente de música erudita, ambas acompanhadas por pianistas, executariam duas árias do Rossini. Duas árias que faziam parte da mesma ópera, cujo nome não me lembro, mas que, segundo as apresentações, consiste de um prólogo e vários monólogos cômicos.

Cantariam apenas as duas árias, uma cada, isolando os trechos da obra origem, o que, do ponto de vista da avaliação, seria um problema. Ou não seria?

O resultado só sairá em agosto. Mesmo assim, parece que, desde já, dá pra arriscar dizer que a primeira venceu a segunda. Por três motivos. Primeiro, porque era superior em técnica - articulava o canto de várias maneiras, sempre com admirável precisão -, seu timbre era variado em matizes e a voz, em geral, bem mais intensa do que a primeira. Segundo, porque era também mais "cantora", procurando o sentido musical com todo o corpo, caminhando levemente, mudando a expressão facial, fazendo gestos, tensionando o tronco e firmando o apoio nos pés nos momentos de maior variação de tessitura etc.

Mas, a julgar pela reação da plateia, dá pra dizer que venceria também pelo critério de "expressão" no contexto específico da ópera. Ou seja, não só pela maneira como submeteu a lógica corporal à interpretação, mas também por que "se entregou" à peça. Os gestos e a movimentação ao mesmo tempo articulavam-se perfeitamente ao que ouvíamos e recuperavam, pela intenção, o sentido da cena. Exemplo maior disso: no final, chegou até a apoiar-se no piano, pegar um papelzinho, escrever alguma coisa nele, depois dobrá-lo e enfiá-lo de repente para dentro do decote do vestido.

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Achei muito estranho isso. Certa vez fui ver a peça vocal que mais gosto, "Viagem de inverno" do Schubert, sendo executada por uma cantora sueca. Ela não se movia do lugar. Parecia o tempo todo submeter o corpo à posição em que melhor ele serviria de suporte para a voz.

O desvio de conduta se devia ao gênero escolhido, então. Isso é o que se poderia chamar o caráter expressivo do canto operístico, estritamente ligado ao contexto narrativo, tão característico e predominante no gênero ópera que chega a virar material fácil de paródia (quem não lembra das paródias do barbeiro de Sevilha nos desenhos animados?).

De fato, segundo reza a teoria, a emancipação da música instrumental, meta de seu desenvolvimento desde o final da Idade Média, implicou, não só cisão em relação à música vocal, como também mil e uma maneiras de se controlar, nos demais gêneros, os elementos expressivos que não se subordinassem à composição como um todo (como era o caso em Die Winterreise). A ópera, seria, portanto, uma verdadeira cicatriz no corpo saudável, organizado e em crescimento da música cujo carro chefe, desde Bach, é a música instrumental. Não é por outra razão que a variedade e a força com que o gênero se disseminou no século XIX é ao mesmo tempo sinal de apogeu e de crise da música moderna.

Esse conteúdo histórico todo é que estava pressuposto na graça da interpretação da moça corpulenta número 1?

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Subitamente me dando conta disso, fiquei achando que, para a banca, que com certeza conhece a peça e domina a teoria, a teatralidade da candidata deve ter contado muito. Sua interpretação não era inocente. Ela não partia do pressuposto de que iria ser avaliada só pelas habilidades e sim da consciência de aplicás-la a um gênero narrativo, o que impunha a necessidade de, além de moldar o canto de acordo, pelo menos sugerir a ação que conferia à música seu sentido, ressaltando o elemento mais fundamental do gênero, ainda por cima. Coisa que, aliás, a segunda moça não levou em consideração, por limites musicais, pela pressão da situação "laboratorial" da avaliação, por confiar no critério tecnicista das avaliações, ou por olhar de baixo a teoria.

Até aí tudo bem. Uma lição de interpretação musical aprendida.

Acontece que, se a gente parar pra pensar melhor, naquela situação, a escolha de uma ária de ópera não deveria ser a melhor, apesar de ter sido a que mais arrancou aplausos da plateia. As demais peças ou eram de estética contemporânea, cuja recepção é sempre fria; ou eram composições em que, rigorosamente, a dificuldade técnica vinha a primeiro plano. Se conhecemos os concursos de maneira geral, é justamente isso que se espera.

Ainda assim, o resultado que se esboçou ali não casava com tal espectativa.

Por particularidades da cultura musical brasileira ou por pressuposição do caráter abstrato dos critérios de avaliação musical em um concurso, parecia que as peças instrumentais levariam a melhor. Isso porque casavam melhor do que a ópera com uma ideia de interpretação estritamente limitada à perícia com que o intérprete subordina a técnica a um conteúdo puramente musical.

Não levaram. Venceu no gosto da plateia a ópera e, quem sabe, não vencerá também no dos jurados.

Má escolha das candidatas? Já não sei. E agora a ópera me parece ser mais uma escolha esperta do que uma escolha refletida. Coerentemente, também já não sei se a vitória implicaria reconhecimento de uma compreensão mais ampla da interpretação baseada em senso musical e conhecimento histórico e teórico.

É possível que as mudanças quase caricatas de expressões de fisionomia da moça ganhassem sentido por algum outro crítério. Um crítério subitamente revelado naquele gesto final que, suprindo a ignorância do público em italiano e o provável fato de nem todos conhecerem a obra de Rossini, sublinhava o assunto e figurava mais gracioso que a tensão corporal dos intérpretes "peritos".

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Dá pra ir mais longe com essa repentina inversão de valores. Lembrando da cena agora, percebo que metade dos gestos da garota eram respostas espontâneas do corpo ao afeto musical e metade eram trejeitos estandartizados de cantoras de ópera.

Sim. Nenhum deles de fato contava história, a não ser os da ceninha do final. Sem prejuízo de, por um subterfúgio teatral, instruir o público na dedução da situação narrativa, ela trazia à sala taciturna uma notinha de leveza e bom humor. Havia muito senso musical ali, mas pensando desde um outro ponto de vista, é bem mais difícil interpretar uma peça instrumental, cujo conteúdo é absolutamente imanente à escrita e deve ser descoberto pela experiência com todo o repertório da tradição, coisa que a narratividade da ópera limita à compreensão da trama e ao domínio das convenções.

Tudo estava invertido. Invertido, exatamente como decifra e explica a crítica musical (do Adorno).

Está lá, como pressuposto de ensaio Bourgeois Opera: a interpretação da ópera, apesar de ainda possuir aura espúria de expressividade, sempre foi baseada em convenções. Convenções que hoje em dia, aliás, envelheceram, ou seja, adquiriram sentido cultural próprio, independente do musical, um pouco como envelheceram as do romance e as do drama em geral. Desde então, lidar com ópera transformou-se em um jogo de tudo ou nada. É impossivel fazer reviverem as convenções tomadas como expressão verdadeira; é canhestro parodiá-las e assim prender-se negativamente ao limite do gênero falseado; é temerário reformá-la à maneira das vanguardas, torná-las reflexivas, pois assim se eliminaria a ambivalência entre razão e mito que, enquanto vigiam os ideais burgueses, lhe constituiam e sustentavam a carnação.

Ora, vista deste ponto de vista, sem paródia e sem reforma, a interpretação da moça na verdade tomava o atalho do "molto expressivo", fugindo, por um lado, do critério idiota da perícia, mas, em compensação, franqueando a linha de menor resistência rumo à aprovação baseada na média do gosto culto que, como tal, encontra-se congelado no estado em que ele estava no século XIX.

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Não é impossível que isso tenha acontecido. Ainda mais pensando o quanto o tradicionalismo besta que embolora o ambiente de estudo de música erudita no Brasil, no fundo, condiz exatamente com as expectativas do público bem pagante, que é (e parece sempre ter sido) massissamente inclinado à "música erudita", ou seja, engole como universais os valores da música que vai de Bach a Beethoven, Brahms no máximo. Mas que, na verdade, só o faz porque "a boa música harmoniza bem como um bom vinho" e, é claro, porque a falta de questionamento do gosto assevera e mantem inquestionada a supremacia social.

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